“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está , mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não aguenta tinta.”
Machado de Assis, Dom Casmurro.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
CARTA DE AMOR
"Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. Ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar. Contudo os meus amigos dizem que é verdade, e eu próprio consigo-me lembrar de detalhes ainda mais charmosos, ainda mais misteriosamente encantadores do que qualquer fantasia sonhadora poderia criar. Tem que ser verdade. Martha é minha, a rapariga doce da qual todos falam com admiração, que apesar de toda a minha resistência cativou o meu coração logo no primeiro encontro, a rapariga que eu receava cortejar e que veio para mim com elevada confiança, que fortaleceu a minha confiança em mim próprio e me deu esperanças e energia para trabalhar, na altura que eu mais precisava.
Quando tu voltares, querida rapariga, já terei vencido a timidez e estranheza que até agora me inibiu perante a tua presença. Iremos sentar-nos de novo sozinhos naquele pequeno quarto agradável, vais-te sentar naquela poltrona castanha , eu estarei a teus pés no banquinho redondo, e falaremos do tempo em que não existirá diferença entre noite e dia, onde não existirão intrusos nem despedidas, nem preocupações que nos separem.
A tua amorosa fotografia. No início, quando eu tinha o original à minha frente não pensei nada sobre a mesma; mas agora, quanto mais olho para ela mais esta se assemelha ao objecto amado; espero que o rosto pálido se transforme na cor das nossas rosas, e que os braços delicados se desprendam da superfície e prendam a minha mão; mas a imagem preciosa não se move, parece apenas dizer: «Paciência! Paciência” Eu sou apenas um símbolo, uma sombra no papel; a tua amada irá voltar, e depois podes negligenciar-me de novo».
Eu gostaria imenso de colocar esta fotografia entre os deuses da minha casa que pairam acima da minha secretária, mas embora eu possa mostrar os rostos severos dos homens que reverencio, quero esconder a face delicada da minha amada só para mim. Vai continuar na tua pequena caixinha e eu não me atrevo a confessar a quantidade de vezes, nestas últimas vinte e quatro horas, que tranquei a minha porta para poder tirar a fotografia da caixa e refrescar a minha memória."
Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 19 de Junho 1882 (excerto)
O AMOR
"Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos
,e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.
Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus."
in 'Cartografia de Emoções' (2001)
Edições D. Quixote
LÍLIA TAVARES (a publicar)
A CARLOS CAMPOS
"É por ti que se enchem os rios de carpas azuis, de águas que querem saltar pela minha janela. Como é belo este silêncio ilimitado quando nas copas redondas das árvores o teu nome me chama. Pedi-te que apagasses a lua e que nos campos tacteando te encontrasse. Sei-te na aurora, por isso não temo e agora a lanterna dos dias pode por fim ficar em ventos de abraços. Voam aves dentro dos teus sonhos como memórias de pétalas acordadas. Ficas ancorado dentro do meu tempo. Não há saudade nem solidão que se não derrube."
domingo, 2 de dezembro de 2012
(Sobreposição...)
"Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca, corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.
Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.
Pra caber mais, derramo por nada, derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei (...)
Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso."
Viviane Mosé
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
A VOZ impecável do Daniel Boaventura. Confesso que fui seduzida pelo seu estilo clássico e a elegância com que se movimenta no palco. Já conhecia o seu primeiro trabalho em cd, mas ele amadureceu como cantor, talvez influencie o fato de ser um ator completo que faz teatro e televisão há muito tempo. É é lindo! Um príncipe que canta e encanta. Aqui, compartilho um pouco das suas músicas . Encantem!
"Estou melancólica. É de manhã. Mas conheço o segredo das manhãs puras. E descanso na melancolia. Sei da história de uma rosa. Parece-te estranho falar em rosa quando estou me ocupando com bichos? Mas ela agiu de um modo tal que lembra os mistérios animais. De dois em dois dias eu comprava uma rosa e colocava-a na água dentro da jarra feita especialmente para abrigar o longo talo de uma só flor. De dois em dois dias a rosa murchava e eu a trocava por outra. Até que houve determinada rosa. Cor-de-rosa sem corante ou enxerto porém do mais vivo rosa pela natureza mesmo. Sua beleza alargava o coração em amplidões.
Oh, como tudo é incerto. E no entanto dentro da Ordem. Não sei sequer o que vou te escrever na frase seguinte. A verdade última a gente nunca diz. Quem sabe da verdade que venha então. E fale. Ouviremos contritos.
.. eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia o quanto era belo e sei que sabia que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma. É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos que o comum das pessoas. Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava-me os cabelos da nuca. E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certa forma dera-me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu não entendia.
A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.
Penso que agora terei que pedir licença para morrer um pouco. Com licença - sim? Não demoro. Obrigada."
Clarice Lispector no livro "ÁGUA VIVA"
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Na FNAC, ontem à noite, pocket show com o cantor Vander Lee, um mineiro típico de fala mansa, bem-humorado e que canta deliciosamente. Um show intimista que proporcionou ao público fazer perguntas de forma mais informal e próxima. Conheci o Vander Lee em Minas, quando ganhei o seu cd anterior. Foi amor à primeira vista, à primeira música. A poesia presente em suas músicas é uma declaração de amor escrita com notas musicais.
O cd SAMBARROCO como sugere o nome é um trabalho voltado para o samba. Um trabalho autoral, com o signo da sua palavra. Das dez músicas, oito são composições suas e duas em parceria com outros compositores.
Um programa agradável para uma terça-feira, na companhia do Thales, meu filho, que fez as fotos e aguardou, pacientemente, na fila de autógrafos.
TERNO CINZA
Primavera chegou cedo Não há nada em meu jardim Madrugada anda calada Nem andor passa por mim O terno cinza do outono Disse o tom ao coração Tudo que me aquece agora É só vazio e solidão O tempo só passa lá fora Eu fico no mesmo lugar Desde que você foi embora Toda noite é sem luar Já bebi toda a guanabara E nada de você voltar Com seu sorriso de iara De brisa de velejar
ESTRELA
Trem do desejo Penetrou na noite escura Foi abrindo sem censura O ventre da morena terra
O orvalho vale a flor Que nasce desse prazer Nesse lampejo de dor Meu canto é só pra dizer Que tudo isso é por ti
Eu vi Virei estrela
Uma jangada à deriva À céu aberto Leva aos corações despertos A sonhar com terras livres
Veio a manhã e eu parti Mas quando cheguei aqui Os astros podem contar No dia em que me perdi Foi que aprendi a brilhar
Eu vi Virei estrela
Mas, preciso confessar: das músicas dele, FAROL é a minha preferida.
Tão doce, tão delicada! Romântica e simples como deve ser toda a declaração de amor.