Que horas são?

sábado, 13 de dezembro de 2014






não há longe na distância, meu amor.

e são as tuas palavras
tecidas e em manto estendidas,
nas noites longas,
que se enrolam em mim
e te fazem presente.


não há longe na distância meu amor.

a não ser que plantes silêncios
como cieiro
nos meus lábios
habituados aos teus...

não há longe na distância, meu amor.






Rosa Maria Ribeiro


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014






" De qualquer modo, há pouco a escolher nessa interminável, eternamente infinda e frustrante busca pela certeza..."


Amor Líquido, Zygmunt Bauman




terça-feira, 2 de dezembro de 2014







                  "O grande amor dá vida."


                                     Lívia Garcia Roza



sexta-feira, 28 de novembro de 2014































                                              




           
                                             




                                                   
             






       
                                                   





segunda-feira, 17 de novembro de 2014



Colorir os dias para iluminar as possibilidades, desfazer os nós, as urgências. Dar vida às horas infinitas, compassar o Tempo que  nem me vê, quando passa. Encompridar os momentos ensolarados para afastar as nuvens cinzentas.
Enfeitar(-se) com delicadeza para não perder a graça que um dia viveu. Florescer.






quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONCERTO OSPA 2014



“Uma sinfonia deve ser como o mundo. Precisa conter tudo.”

                          Gustav Mahler






                                                       (com a minha amiga Vera Feix)



                       











segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Carlos Eduardo Leal, meu amigo querido, lança seu novo livro,  'O CÉU DA AMARELINHA', dia quatro de novembro, na Livraria da Travessa Ipanema, no Rio de Janeiro. Com uma bibliografia que passeia pela prosa e pela poesia, 'O Céu da Amarelinha' é um romance instigante, com um tema que nem sempre é fácil enfrentar.
Recomendo a leitura e sugiro que prestigiem Carlos Eduardo, neste dia.


                                    










Carlos Eduardo Leal é  psicanalista, poeta, escritor e artista plástico. Escreve com a sensibilidade de quem (re)conhece as dores e alegrias da Vida.







Assisti este filme tantas vezes quantas me encantei.  Uma história de amor, de vida e suas (im)possibilidades.  E leio as palavras do Pedro Moacyr como uma tradução do que sempre vi, na tela, mas não soube escrever.






"Mas quem deita a vida como se sobre um tapete para ver-lhe todos os pedaços em que se constituiu não verá mais do que miseráveis porções confusas, estilhaços fragmentários de uns nacos desorganizados, algumas frações caóticas de um imenso e cadenciado andamento. Irá procurar na escuridão das noites alguma claridade impossível; irá ofuscar-se na luz dos dias atrás de uma dobra que, por pejo, não se mostra jamais; irá rastejar saudoso, perseguindo o rosicler da aurora de um dia perdido; irá ainda vagar como um monge pelos sombrios corredores de seu mosteiro a procura do deus que sempre quis ver. Quem deita a vida sobre um tapete tem lembranças imprecisas, e parecerá um mercador de si próprio, oferecendo-se a vida estirada para um bom inventário, e quererá comprar essa vida para ver se encontra os fatos, aqueles fatos, outros fatos, suas coisas, seus detalhes, as rugas esquecidas do viver que se foram com o tempo, e venderá a si próprio a sua vida para tê-la novamente, não para vivê-la, que isso impossível é ao tempo cartesiano, mas para lembrá-la, remontá-la, sofrer e alegrar-se de novo pelo que, agora, está certo de que não mais viverá. E vasculhará suas taças atrás de água e suas baixelas atrás de comida; ele vai querer um quarto, um porta-retrato, um caderno inútil, um cheiro, uma cama, um silêncio, e prosseguirá com os olhos fixos e nostálgicos atrás do que não foi e poderia ter sido, e do que foi e poderia não ter sido, e conhecerá sua imprevisibilidade e a fortuidade dos acontecimentos. E tanto caçará suas coisas todas, tanto esquadrinhará o seu tapete, tanto cultivará a esperança, que em sua investigação sentimental perceberá ser o amor o único sentimento a pôr-se no verdadeiro relicário do seu coração; e que todo o resto se prestou apenas para formar, feito um lúdico quebra-cabeça, a integralidade do que viveu, mas a importância desse resto é como a das paredes em relação ao teto das casas: obrigatórias, porém secundárias. E esse amor ele talvez nunca encontre. Pode tê-lo apenas imaginado, concebido em delírio, fomentado por um desatino de paixão não reconhecida. Esse amor pode ter sido apenas seu, também. Nunca se deu a mostrar, nunca saiu pela boca ou verteu-se pelo sexo. Mas esse amor pode também ter existido e sido terrivelmente único, irrepetível, e não ter sido vivido. Esse amor pode agora já estar depositado sobre o tapete de suas memórias, e então ele lacrimejará porque esse amor terá sido daqueles que não foi e poderia ter sido. E ele tentará, afrouxado pela tristeza impotente, retesar um pouco os músculos que já não precisam mais ser fortes para abraçar o seu amor, o amor que nunca foi abraçado mas que deveria ter sido. Novamente pensará naquele par; se homem, naquela mulher; se mulher, naquele homem, e recuperará o desejo, e reporá na pele a ardência dos amantes, e enfeitiçará seu pensamento das loucuras de quem ama e quer, de quem deseja e adora, de quem não consegue imaginar outro par igual, tão sensível, tão emocional, tão querido e tão infinitamente sonhado que por ele daria a vida, essa mesma vida que está a pôr sobre seu tapete imaginário. Queria não ter agora vontade de voltar porque queria àquele tempo ter ido, junto ficado, ao lado permanecido, ao lado vivido.
Então este que vemos pôr a vida sobre tapete recusa - num tempo anterior e inicial - a ideia do tapete, a vontade de tolos arrolamentos, os desperdícios de chances, e vê a vida exatamente enquanto ela passa, e evita um futuro onde precise acender faróis na popa de sua embarcação, observando o passado sem conseguir remontá-lo à custa de seus arrependimentos. E esse homem que evitou os tapetes da imaginação será um amante prático e pouco reflexivo, mas viverá seu amor, e saberá que o homem que estendia tapetes era pensativo demais e perdera seu grande amor entre os anos enevoados que passaram. 
Surgirá assim um terceiro homem, que é os outros dois, pois os três são um e um é os três, e fará a pergunta: o que se leva dessa vida e o que nela se deixa que frutifique? E não saberá responder, ficará olhando um céu desabitado e de raro auxílio, olhará depois o chão em que pisa, e passará dias, meses, anos, consumirá talvez sua existência a pensar sobre a melhor resposta, e a vida passará.
Mas são três homens, mesmo que um só seja. Todos têm suas razões, e combinaram, por pudor moral, não julgarem um ao outro, mesmo que a cabeça de todos, que é uma cabeça só, viva aflita pela dúvida e tenha vontade de amar, mas amar de adoração."




Pedro Moacyr Pérez da Silveira é professor de Filosofia do Direito, na Universidade Federal de Pelotas -RS.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014




Amor como em Casa




"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa."



Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"







"Você tem obrigação de ser fiel ao que você viveu."


                                 Nélida Piñon




terça-feira, 21 de outubro de 2014





"Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida."






Paulo Mendes Campos, in "A Palavra Escrita", do livro Poemas de Paulo Mendes Campos, Ed. Civilização Brasileira.





quinta-feira, 16 de outubro de 2014







Há  três anos nascia este espaço com o apadrinhamento afetivo da minha amiga Ana Lúcia. Neste período, fiz amigos novos, cultivei os antigos e recebo visitas de quem só passa para dar uma olhadinha. Sempre foi um espaço despretensioso, sem rótulos, sem calendários, apenas um espaço para os bons registros e um tantinho de mim, em cada postagem. Nestes tempos, em que as redes sociais tomaram o espaço dos blogs, pela praticidade de reunir tudo em um só lugar, é gratificante perceber que ainda recebo visitas constantes e fiéis. Agradeço, comovida, à Ana Lúcia que insistiu para que eu me permitisse estar aqui, e a todos os amigos que me prestigiam, com muito carinho. Que possamos nos encontrar por aqui, enquanto houver poesia, nesta Vida.
Muito obrigada!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014





não sei navegar nos teus silêncios


"(se um mapa houvesse,
perder-me-ia, na urgência
de os ler)
distantes, opacos,
ensurdeço
no esforço de te entender.
insondáveis as águas
deste imenso
vazio
baixo as velas
e encosto-me à deriva das marés
que há na tua voz.
até um dia
acostar
a ti."




Rosa Maria Ribeiro




segunda-feira, 13 de outubro de 2014





" - Se te fores de mim, não volta. Mas, se voltares, não procura por mim onde me deixaste. Estarei já perto de onde começaste teu retorno, pois atrás de ti terei ido desde tua partida com todo o desejo do meu coração, com todas as palavras de súplica que conheço e com o corpo incendiado pela febre de uma paixão sem fim. Retorna então ao lugar para onde foste, que por este caminho estarei a andar, e chegarás então por trás de mim, e não pela frente, como estaria eu a pensar. Mas isso não importará, estarei tão tomado pelo encanto de te encontrar que já não pensarei sobre de onde vens, mas apenas que vieste".

Há muitos anos ele disse isso a ela. Ele continua a andar por aquele caminho, na esperança de vê-la chegar por qualquer quadrante.
Seu coração ainda é feito de fogo."



Pedro Moacyr Pérez da Silveira
Professor de Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pelotas.




sábado, 11 de outubro de 2014




"Há quem fale
em séculos.
Eu só penso
no minuto
que passa."



Mário da Silva Brito, poeta brasileiro, em 'Areia na Ampulheta', do livro 'Jogral do Frágil e do Efêmero' (Ed. Civilização Brasileira)



terça-feira, 7 de outubro de 2014




Poema Preso


Viviane Mosè


"A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo."


Mosé, Viviane. Pensamento Chão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008




segunda-feira, 6 de outubro de 2014







"Advierte Sancho —respondió don Quijote— , que hay dos maneras de hermosura: una del alma y otra del cuerpo; la del alma campea y se muestra en el entendimiento, en la honestidad, en el buen proceder, en la liberalidad y en la buena crianza, y todas estas partes caben y pueden estar en un hombre feo, y cuando se pone la mira en esta hermosura, y no en la del cuerpo, suele nacer el amor con ímpetu y con ventajas.
Yo, Sancho, bien veo que no soy hermoso, pero también conozco que no soy disforme, y bástale a un hombre de bien no ser monstruo para ser bien querido, como tenga los dotes del alma que te he dicho."


[Fragmento do segundo capítulo LVIII, 
Dom Quixote de La Mancha.] 




quarta-feira, 1 de outubro de 2014



Não é bom negar o amor, como Pedro a Jesus. Três vezes: não o conheço, não o conheço, não o conheço. O amor tem caminho próprio. Estará lá.
 




"(...)A te che sei il mio grande amore
Ed il mio amore grande
A te che hai preso la mia vita
E ne hai fatto molto di più
A te che hai dato senso al tempo
Senza misurarlo
A te che sei il mio amore grande
Ed il mio grande amore
A te che io
Ti ho visto piangere nella mia mano
Fragile che potevo ucciderti
Stringendoti un po'
E poi ti ho visto
Con la forza di un aeroplano
Prendere in mano la tua vita
E trascinarla in salvo
A te che mi hai insegnato i sogni
E l'arte dell'avventura
A te che credi nel coraggio
E anche nella paura
A te che sei la miglior cosa
Che mi sia successa
A te che cambi tutti i giorni
E resti sempre la stessa
A te che sei
Semplicemente sei
Sostanza dei giorni miei
Sostanza dei sogni mie(...)"







segunda-feira, 29 de setembro de 2014


                        "(...)Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."



ZERO GRAU DE LIBRA


Caio Fernando Abreu


"Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra.
Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."



sábado, 27 de setembro de 2014



"Até os 30 anos, eu carregava 50 certezas absolutas. Venho perdendo, em média, uma por ano. Se minhas contas estiverem certas, não terei nenhuma certeza categórica por volta dos 80 anos e passarei, então, a viver na dúvida.(...)"


Moisés Mendes, Jornal Zero Hora, 26/09/2014



E eu que sempre defendi minhas certezas, hoje sinto, da mesma forma. Elas já rareiam, são poucas, bem poucas. As que restaram movem meus pensamentos em direção à dúvida. Minhas certezas não geraram destino, puseram-me nos trilhos, nem sempre escolhidos. Aos vinte anos, idealista e romântica, tinha todas as certezas do mundo. Aos trinta, algumas se dissiparam no caminho. Aos quarenta a Vida trouxe-me um pacote de incertezas e o que era definitivo e sólido transformou-se em tecido delicado de possibilidades. Agora, bem perto mais perto dos cinquenta anos, bordo as horas e os dias. Ir, além, é pura possibilidade. 



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Poemas do Flávio Luís Ferrarini



DESALENTO

O capim treme no chão do meu olho
Venta
Venta no olho do furação da minha alma
Treme
Treme minha alma no varal do vento
Desalento

DOR

Escondo a dor
Atrás do muro
Verdejado de musgo
Iluminado de escuro


CORAGEM

Quando perdi meu primeiro dente de leite
Perdi a coragem que eu tinha de sorrir
Quando perdi meu primeiro grande amor
Perdi a coragem que eu tinha de amar
Quando num dia qualquer me perdi de mim
Perdi a coragem que eu tinha de voltar



Biografia do Flávio, aqui: Biografia



sábado, 30 de agosto de 2014

Primavera





"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera."


(Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014





Há dias que acordamos desesperançados, angustiados e áridos de ideias. Dias cinzentos, escurecidos, travados. Como mudar esta sintonia? Não tenho receita alguma, não conheço o caminho das pedras. Conheço as pedras. Reconheço-as, todas. Parceiras de jornada, sinalizam os atalhos e iluminam novas possibilidades. E o Sagrado se manifesta. Imenso! Quase perturbador. Uma benção para decifrar, em cada ponto que exclamamos ou interrogamos.
Minha vida guarda uma história que me orgulha, justamente por que me ensinou a caminhar entre as pedras.
Contabilizo mais bençãos do que perdas, por que aprendi a transmutar perda em benção. Conto mais felicidades do que tristezas, por que nem tudo o que parece, é. Definitivamente.
E ganhei a grandeza de compreender e perdoar, ainda que não tenha entendido, nem concordado.  Perdoar para acolher e ganhar colo, mais adiante, por outro abraço, com outro nome.  É uma iluminação pessoal, um rito de passagem, uma vontade imensa de acertar. Acertar o passo, acertar os ponteiros do tempo, acertar as contas. Acertar o alvo, que é a Vida, com leveza e dignidade, ainda que os dias amanheçam sombrios. Por que a Luz está no coração de quem se abre, de quem se entrega. É por esta fresta que o Sagrado se manifesta. Imenso!
Gratidão!





terça-feira, 29 de julho de 2014





Que Tal o Impossível?


Itamar Assumpção


Que tal se nós dois vivêssemos
Do jeito que nós quiséssemos
Sem nada que aborrecesse-nos
Que tal se tudo tivéssemos

Que tal se realizássemos
Aquilo que nós sonhássemos
Maçãs macias comêssemos
Que tal se nós beijássemos

Que tal se nós dois dormíssemos
Olho no olho acordássemos
Que tal se nós felicíssimos
Que tal se nós dois voássemos

Que tal se nós dois pudéssemos
Aquilo que desejássemos
Que tal se nós dois cantássemos
Tocássemos e nós dois mesmos dançássemos

Que tal se nós dois partíssemos
Que tal se a sós ficássemos
Que tal se ao máximo amássemos
Que tal se no céu morássemos

Que tal
Que tal o impossível
Que tal
Que tal o impossível





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por mais vida, com Suassuna.

                     Ariano Suassuna, na década de 1970.




"É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Pensar que vai morrer prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela"


Ariano Suassuna





Dois momentos com a minha amiga Ana Lúcia. Por que a Vida é bonita, assim, quando nem percebemos. E amizade é o que nos sustenta.
E Ricardo é uma pessoa especialíssima. Inteligente, sensível, poeta de alma refinada e parceiro enamorado da Ana Lúcia.


Filme & café 

Jantar com Ana Lúcia e Ricardo








As aulas do Ariano Suassuna











                                             Ariano Suassuna, na década de 1970.


terça-feira, 22 de julho de 2014



Não, o mundo não está perdido. Perdidos, estamos nós, diante da imensidão de (des)compromissos, deslealdades e desenganos. Perdidos, estamos nós, neste mundo de ar rarefeito, tempestades repentinas, ventanias inesperadas.
E falta de amor e amizade.
E lealdade, antes de tudo.
Benditos sejam os que entendem de lealdade. 
Os raros.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Recebi este convite da minha amiga Ana Lúcia Teixeira, lá do Roccana. Espero que minhas respostas possam estar à altura da brincadeira afetiva, que consiste em completar as frases propostas.

O mundo seria muito mais feliz se ...
deixássemos de lado os julgamentos e refinássemos o olhar.

Uma amizade é realmente importante quando ...
o amigo nos abraça quando erramos, quando avaliza nosso nome e celebra nossa felicidade.

Paciência e tolerância são para mim ...
a base de qualquer relacionamento, um exercício diário, um luxo afetivo.

Algo que me irrita profundamente é ... quando subestimam minha capacidade de compreensão.

Acho que as pessoas mais humildes ...
são as que conhecem (e praticam) o verdadeiro sentido da humildade.

Quando o dia amanhece nublado eu ... me fecho, em concha.

Uma qualidade indispensável nas pessoas é ...
honestidade ( e tudo o que for claro e transparente).

Devo repassar a brincadeira para outras blogueiras, por isso escolhi a Karinne Santiago  do Poeticaria , e a  Helô da Cunha do Cuide bem da sua vida.


Propósitos









domingo, 13 de julho de 2014

                                  (dia de frio, em Santana do Livramento)



"Para tanto esquecer é preciso nunca ter vivido."



Mia Couto, in "a confissão da leoa", Edit. Caminho, Lisboa, 2012