segunda-feira, 6 de abril de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
O AMOR
"Chega de escrever
Sobre o amor
Como tenho feito,
Chega de trazer
a exaustão e a dor
ao peito machucado,
chega de esperar
fecundidade na
areia calcinada
Vou atrás de outro
assunto, de outro
sentimento menos
bruto e selvagem
do que o amor,
vou procurar
alhures
encontrar a
suavidade que o
amor não traz,
parto em busca
de uma outra
fome,
de uma outra
sede,
de um parto
de nova criatura
Vou à História,
à Geografia,
à Física,
à Química,
à Biologia
e a algum outro
saber humano
que bem maneje
malabares
dentro do tempo
e nalgum espaço,
há de haver um certo
entendimento
organizado pelos
estudiosos, pelos
lentes das universidades,
pelos gênios dos laboratórios,
pelo engenho humano
desde o princípio
de nós
E transito agora
entre livros,
nas vastas bibliotecas
dos eruditos,
dos sábios,
das pessoas de
imensa formação,
e abro todas as folhas,
e fecho todas elas
também,
porque são insípidas
e são cansativas
e são insensíveis,
e prossigo agora
a conversar com
esses homens todos,
alimentando minha
esperança de odiar o amor
porque nada me trouxe,
nada me deu
E nisso estou há muitos anos,
e caminho já fatigado
por todas as estradas
que conheci
depois que o amor
de mim desdenhou,
adoeceu meu coração
com sua doença
incurável,
e me trouxe todos
os custos,
todos os preços
e todas as quantias
que um pobre espírito
há de pagar
- e não pode pagar -
para sorrir
enquanto ama
e é amado
Eu sou sua vítima
e quero seu fim,
sua morte,
e pesquiso ainda
em bibliotecas
e consulto
homens de saber
para que me digam
como bem odiar
o amor,
e eles me dão conselhos
confusos
e me dão bússolas
que não quero,
palavras que desconheço
e fraternidade duvidosa,
não sabem falar do amor
e não sabem como odiar
o amor,
como eu odeio há tantos
anos,
desde que morri de amor
e fiquei insepulto
como um Polinice
sem Antígona,
e desde então
sobrevoam pássaros
mórbidos
sobre meu corpo
caído ao chão,
morto de amor
Mas eu,
depois de tanto tempo
buscando matar
quem me matou,
definindo meu
maior oponente
e planejando
fazê-lo sofrer
como a mim
ele fez,
eis que abro todos
os livros do mundo,
irrompo em todas
as bibliotecas
da Terra,
converso com
todos os eruditos
e todos os sábios,
todos os professores,
todos os antigos
preceptores,
e vejo que não há,
nem nos livros,
nem nas bibliotecas
e nem no coração
dos homens de saber
um assunto que,
mesmo sendo
esse horrível
amor,
a ele supere
E é quando
então sinto a
desesperação
de precisar seguir
com ele sobre mim
revoando,
de precisar cumprir
meus dias
com o amor na cabeça,
de aceitar
meu coração arrebentado
E depois, por fim,
definitivamente estafado
por tanta busca,
vem-me subitamente
a impressão
de que o amor
apenas me entrara mal
ao coração,
e que agora, se bem nele entrar,
será o que sempre
disseram os que não
consultei,
- eles, os poetas -
para tornar-se o
alimento da minha fome
e a água da minha sede,
e eu o perdoarei
porque não o
havia compreendido
diante da frágil
tessitura que o compõe,
da sofisticada essência
que possui
e das filigranas
- finas ourivesarias
da emoção -
que me contam que
“sem amor, eu nada seria”..."
Pedro Moacyr Pérez da Silveira, é professor de Filosofia do Direito, na Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul. É meu amigo e escreve com a sensibilidade dos poetas.
terça-feira, 31 de março de 2015
O QUE ESPERAR DE UMA RELAÇÂO
"Que não tenha mentiras. Nem traição.
Que perceba o que gera ciúme, não se envaideça da insegurança, e procure esclarecer as dúvidas com firmeza.
Que proporcione segurança, sem falsos compromissos. Que o outro possa se ausentar com tranquilidade não precisando se preocupar se você está fazendo o que falou.
Que não exerça a cumplicidade do mal com os próximos, desmerecendo quem você ama.
Que não permaneça de conversa e flerte com ex e interessados, que não ache graça em realizar as coisas escondido, como se fosse mais esperto.
Que não crie juízo final em cada discordância.
Que feche o passado amoroso por respeito e não traga à tona o quanto já foi alegre e livre antes. Afinal, experiência que virou sabedoria é silenciosa.
Que não resvale em soberba e prepotência na hora de ouvir conselhos e aceite opiniões diferentes da sua.
Que respeite quem viveu mais e pode exemplificar dilemas.
Que não desmereça o significado de nenhum presente ou agrado.
Que entenda o senso de humor e a alegria de sua companhia.
Que participe do trabalho do outro.
Que faça demonstrações de como seu par vem sendo especial e decisivo em sua vida.
Que recorde os momentos de entrega e romance para nunca se distanciarem da paixão.
Que conte o que está pensando, antes de qualquer pergunta.
Que exponha seus gostos e não cobre adivinhação. E que não se insulte em repetir as preferências. Esquecimento nem sempre é desinteresse.
Que destaque o quanto prefere viajar a dois, para dividir as lembranças e somar as memórias.
Que organize férias e alimente expectativas.
Que não deboche pelas costas.
Que não repita as ofensas que mais doem numa discussão.
Que não agrida fisicamente por nada neste mundo.
Que os projetos sejam cumpridos e jamais abandonados. Pela insistência, diferenciamos o sonho do capricho.
Que jamais despreze o salário ou gaste algo sem a dimensão do esforço que custou.
Que as atividades planejadas diariamente, ainda que desagradáveis, não sejam canceladas.
Que não use dois pesos e duas medidas, que aquilo que peça também seja feito de sua parte.
Que abra espaço para o programa predileto do outro uma vez por semana.
Que prepare um jantar ou um café de surpresa para roubar risos.
Que conforte na doença e acalme na tristeza.
Que tire um dia no final de semana para preguiça da conchinha e da tevê.
Que participe das contas, do planejamento da casa.
Que festeje as virtudes do outro com os amigos e que exponha, reservadamente, os defeitos que incomodam.
Que combata as injustiças com ardor.
Que agradeça as gentilezas retribuindo com novas gentilezas.
Que não incentive intrigas e procure aproximar os familiares.
Que todas essas regras sejam espontâneas e esquecidas dentro da felicidade. Pois apenas existe um jeito de amar que dá certo: quando amamos com caráter."
(Fabrício Carpinejar)
terça-feira, 3 de março de 2015
"A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos".
Simone de Beauvoir
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
A NATUREZA E A JANELA
"Gosto de olhar para a
Natureza,
tudo parece impossível de ali estar
com a exatidão
da beleza ou da feiúra,
Não gosto de olhar para a
Natureza,
parece não haver esforço algum
para que tudo seja como é
Há esse Deus de que falam
as grandes religiões,
e há esses deuses de que falam
as pequenas esperanças
das transcendências menores,
E enquanto isso eu fico
na janela desse degredo vagabundo
a que me entreguei,
olhando prédios, carros e pessoas
com a convicção do acaso
e com a desconfiança
sobre uma Criação comovente
Um Deus, uns deuses,
uns caras assim, lá de cima,
fazendo tudo ser
fazendo tudo estar
fazendo tudo mudar
fazendo a história de tudo
se dialetizar,
e nos dando a impressão de
que temos alguma importância,
Esses sujeitos, sim, me trariam
alguma alegria e estupefação,
Mas não dão as caras nunca,
ficam por aí escondidos até
que a descrença chegue
e perca o valor
a extraordinária existência
etérea
sobre a qual nos acostumamos
a imaginar os grandes criadores
E dessa janela deixo escorregar
um pouco de whisky
para dentro desse corpo que vai
ficando velho,
E deixo o pensamento caminhar
com a velocidade dele mesmo,
com a agilidade
que hoje ainda tem,
mais lenta,
mas trazendo as cautelas
que o tempo me deu
Não lhe dou pressa,
o pensamento não carece
de correr,
E o whisky me traz
lentamente a impressão
de que ele é mais forte do que um deus,
de que ele vale mais do que todas as igrejas,
de que não é nocivo porque
vai matando o corpo
e destroçando a lucidez
Não tenho muito interesse em lucidez
e isso não me faz falta,
acostumei-me a realidades
paralelas
e nelas fiz meu ninho
de pássaro atormentado
e louco
O que me encanta nesses
tragos inúteis desses dias
inúteis
é a sensação de que posso pensar
como um deus
e fazer o mundo rodar
para onde eu queira,
sempre a paz e algum alento,
sempre longe desse meu desespero,
dessa ausência de que falava
Camile Claudel,
e que sempre a acompanhava,
“Il y a toujours quelque chose d'absent
qui me tourmente”
E assim vou indo,
até desaparecer toda minha humildade,
até brotar do chão minha presunção,
até que eu fique pujante,
até sentir que sou vigoroso
o suficiente para criar um mundo
desde o fundo
do fundo
da minha aflição
E depois me tornar mortal
quando o whisky irá embora,
quando a Natureza ficará órfã,
quando eu restaurarei a sobriedade
tão pretendida pelos de bom senso,
tão óbvia para os cuidadores da vida
Tão clara, tão clara
Mas aí, quando recupero os sentidos,
todos os sentidos,
e quando deixo de ser um desses deuses
fundamentais,
ganho novamente a condição humana,
que não sei de onde vem
e nem para onde vai,
E então o mundo todo fica mais triste
e meus olhos choram um pouco
e a poesia desaparece
E com esse mesmo rosto
de sempre,
quando somente as marcas do
tempo
me modificaram,
eu olho novamente pela minha janela
e me sinto a própria Natureza,
eu sinto que sou a substância nascida
para ser o que fui,
para ser o que sou,
a argila da indignação,
a recusa pedagógica do correto,
o ungido pelo óleo viscoso
da normalidade,
esse lugar de onde me afasto
com gestos suaves e delicados,
e tudo o mais que esperam de mim
E é nesse momento que fico contra todos
porque sou feito de estranhezas,
Mas prossigo anônimo
entre todos os adversários
que nada percebem,
Tenho os olhos cheios de sangue,
o coração feito um tarol militar,
e o desejo de guerrear nas ruas
da minha cidade,
feito um jovem atrás de barricadas
se aventurando no caminho da morte,
mas sou pacífico, não faço mal a ninguém
É que uma estratégia para viver
talvez seja sempre necessária,
mesmo entre mortos imaginários,
para atingir uma felicidade
um tanto rara, quase única,
mas indispensável
a um espírito
irrequieto como bicho
enjaulado."
Pedro Moacyr Pérez da Silveira é professor de Filosofia do Direito da Universidade Federal de Pelotas, RS.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
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