Talvez os erros, talvez a paixão, talvez a sombra do cansaço. Pego na tua mão e beijo-a. Pego na tua mão e danço. Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois. Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira. Hoje, só o meu coração sabe dançar. A tua outra mão segura-o, partilha-o, é testemunha desta forma de alegria.
Escuta esta música que a noite sorri. Sente como, através dela, se excitam já os tímbalos, se apaixonam as cordas, como exulta o oboé. É uma música magnífica que se alimenta da luz, incandescendo as emoções. Pensamentos, desejos, nervos, tudo gritando por dentro. Não sinto o teu corpo, não sinto o meu corpo, tudo é transparência, tudo é fantasia, e assim são as palavras.
Movo-me contigo respirando o segredo nocturno dos desertos. Não tenho ideias, nem casa, nem sei adormecer.
Inspiro-te. Respiro-te. O cansaço é doce, estupendo, para sempre. À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a inquietação é um fruto excitante por colher. Não páres.
Continua a dançar comigo. Como se fizéssemos amor."
*
in ANO COMUM, Litexa
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Baciami Ancora One due tre four. Un bellissimo spreco di tempo un'impresa impossibile l'invenzione di un sogno una vita in un giorno una tenda al di là della duna Un pianeta in un sasso l'infinito in un passo il riflesso di un sole sull'onda di un fiume son tornate le lucciole a Roma nei parchi del centro l'estate profuma. Una mamma un amante una figlia un impegno una volta una nuvola scura un magnete sul frigo un quaderno di appunti una casa un aereo che vola. Baciami ancora… Baciami ancora… Tutto il resto è un rumore lontano una stella che esplode ai confini del cielo. Baciami ancora… Baciami ancora… Voglio stare con te inseguire con te tutte le onde del nostro destino. Una bimba che danza un cielo una stanza una strada un lavoro una scuola un pensiero che sfugge una luce che sfiora una fiamma che incendia l'aurora. Un errore perfetto un diamante un difetto uno strappo che non si ricuce. Un respiro profondo per non impazzire una semplice storia d'amore. Un pirata un soldato un dio da tradire e l'occasione che non hai mai incontrato. La tua vera natura la giustizia del mondo che punisce chi ha le ali e non vola. Baciami ancora… Baciami ancora… Tutto il resto è un rumore lontano una stella che esplode ai confini del cielo. Baciami ancora… Baciami ancora… Voglio stare con te invecchiare con te stare soli io e te sulla luna. Coincidenze destino un gigante un bambino che gioca con l'arco e le frecce che colpisce e poi scappa un tesoro una mappa l'amore che detta ogni legge per provare a vedere che c'è laggiù in fondo dove sembra impossibile stare da soli a guardarsi negli occhi a riempire gli specchi con i nostri riflessi migliori Baciami ancora… Baciami ancora… Voglio stare con te inseguire con te tutte le onde del nostro destino. Baciami ancora…
Beije-me, novamente! Um, dois, três quatro. Um belíssimo desperdício de tempo um objetivo impossível a invenção de um sonho uma vida num dia uma tenda do outro lado da duna Um planeta numa pedra, o infinito num passo o reflexo de um sol sobre as ondas de um rio Voltaram os vaga-lumes à Roma Nos parques do centro o verão perfuma. Uma mãe, um amante, uma filha um compromisso, uma vez, uma nuvem escura um imã de geladeira, um bloco de notas uma casa, um avião que voa. Beije-me novamente... Beije-me novamente... Todo o resto é um som distante uma estrela que explode nos confins do céu. Beije-me novamente... Beije-me novamente... Eu quero estar contigo seguir contigo todas as ondas do nosso destino. Uma menina que dança, um quarto, um céu uma estrada, um trabalho, uma escola um pensamento que escapa uma luz que toca uma chama que incendia o amanhecer. Um erro perfeito, um diamante, um defeito um rasgo que não se costura Uma respiração profunda para não enlouquecer uma simples história de amor. Um pirata, um soldado, um deus para revelar (ou trair) e a ocasião que você nunca encontrou. A sua verdadeira natureza, a justiça do mundo que pune quem que têm asas e não voa. Beije-me novamente... Beije-me novamente... Todo o resto é um som distante uma estrela que explode nos confins do céu. Beije-me novamente... Beije-me novamente... Eu quero estar contigo envelhecer contigo Estar sozinho eu e você na lua Coincidência, destino um gigante, um menino que brinca com arco e flecha que acerta e depois foge um tesouro, um mapa o amor que dita cada lei para tentar enxergar que existe lá no fundo onde parece impossível estar sozinho para olhar para si mesmo nos olhos para preencher os espelhos com nossos melhores reflexos Beije-me novamente... Beije-me novamente... Eu quero estar contigo seguir contigo todas as ondas do nosso destino. Beije-me novamente... Beije-me novamente
sábado, 3 de janeiro de 2015
Romy Schneider & Alain Delon celebrating their engagement in Lugano, 1959
sábado, 13 de dezembro de 2014
não há longe na distância, meu amor.
e são as tuas palavras tecidas e em manto estendidas, nas noites longas, que se enrolam em mim e te fazem presente.
não há longe na distância meu amor.
a não ser que plantes silêncios como cieiro nos meus lábios habituados aos teus...
não há longe na distância, meu amor.
Rosa Maria Ribeiro
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
" De qualquer modo, há pouco a escolher nessa interminável, eternamente infinda e frustrante busca pela certeza..."
Colorir os dias para iluminar as possibilidades, desfazer os nós, as urgências. Dar vida às horas infinitas, compassar o Tempo que nem me vê, quando passa. Encompridar os momentos ensolarados para afastar as nuvens cinzentas. Enfeitar(-se) com delicadeza para não perder a graça que um dia viveu. Florescer.
“Uma sinfonia deve ser como o mundo. Precisa conter tudo.”
Gustav Mahler
(com a minha amiga Vera Feix)
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Carlos Eduardo Leal, meu amigo querido, lança seu novo livro, 'O CÉU DA AMARELINHA', dia quatro de novembro, na Livraria da Travessa Ipanema, no Rio de Janeiro. Com uma bibliografia que passeia pela prosa e pela poesia, 'O Céu da Amarelinha' é um romance instigante, com um tema que nem sempre é fácil enfrentar. Recomendo a leitura e sugiro que prestigiem Carlos Eduardo, neste dia.
Carlos Eduardo Leal é psicanalista, poeta, escritor e artista plástico. Escreve com a sensibilidade de quem (re)conhece as dores e alegrias da Vida.
Assisti este filme tantas vezes quantas me encantei. Uma história de amor, de vida e suas (im)possibilidades. E leio as palavras do Pedro Moacyr como uma tradução do que sempre vi, na tela, mas não soube escrever.
"Mas quem deita a vida como se sobre um tapete para ver-lhe todos os pedaços em que se constituiu não verá mais do que miseráveis porções confusas, estilhaços fragmentários de uns nacos desorganizados, algumas frações caóticas de um imenso e cadenciado andamento. Irá procurar na escuridão das noites alguma claridade impossível; irá ofuscar-se na luz dos dias atrás de uma dobra que, por pejo, não se mostra jamais; irá rastejar saudoso, perseguindo o rosicler da aurora de um dia perdido; irá ainda vagar como um monge pelos sombrios corredores de seu mosteiro a procura do deus que sempre quis ver. Quem deita a vida sobre um tapete tem lembranças imprecisas, e parecerá um mercador de si próprio, oferecendo-se a vida estirada para um bom inventário, e quererá comprar essa vida para ver se encontra os fatos, aqueles fatos, outros fatos, suas coisas, seus detalhes, as rugas esquecidas do viver que se foram com o tempo, e venderá a si próprio a sua vida para tê-la novamente, não para vivê-la, que isso impossível é ao tempo cartesiano, mas para lembrá-la, remontá-la, sofrer e alegrar-se de novo pelo que, agora, está certo de que não mais viverá. E vasculhará suas taças atrás de água e suas baixelas atrás de comida; ele vai querer um quarto, um porta-retrato, um caderno inútil, um cheiro, uma cama, um silêncio, e prosseguirá com os olhos fixos e nostálgicos atrás do que não foi e poderia ter sido, e do que foi e poderia não ter sido, e conhecerá sua imprevisibilidade e a fortuidade dos acontecimentos. E tanto caçará suas coisas todas, tanto esquadrinhará o seu tapete, tanto cultivará a esperança, que em sua investigação sentimental perceberá ser o amor o único sentimento a pôr-se no verdadeiro relicário do seu coração; e que todo o resto se prestou apenas para formar, feito um lúdico quebra-cabeça, a integralidade do que viveu, mas a importância desse resto é como a das paredes em relação ao teto das casas: obrigatórias, porém secundárias. E esse amor ele talvez nunca encontre. Pode tê-lo apenas imaginado, concebido em delírio, fomentado por um desatino de paixão não reconhecida. Esse amor pode ter sido apenas seu, também. Nunca se deu a mostrar, nunca saiu pela boca ou verteu-se pelo sexo. Mas esse amor pode também ter existido e sido terrivelmente único, irrepetível, e não ter sido vivido. Esse amor pode agora já estar depositado sobre o tapete de suas memórias, e então ele lacrimejará porque esse amor terá sido daqueles que não foi e poderia ter sido. E ele tentará, afrouxado pela tristeza impotente, retesar um pouco os músculos que já não precisam mais ser fortes para abraçar o seu amor, o amor que nunca foi abraçado mas que deveria ter sido. Novamente pensará naquele par; se homem, naquela mulher; se mulher, naquele homem, e recuperará o desejo, e reporá na pele a ardência dos amantes, e enfeitiçará seu pensamento das loucuras de quem ama e quer, de quem deseja e adora, de quem não consegue imaginar outro par igual, tão sensível, tão emocional, tão querido e tão infinitamente sonhado que por ele daria a vida, essa mesma vida que está a pôr sobre seu tapete imaginário. Queria não ter agora vontade de voltar porque queria àquele tempo ter ido, junto ficado, ao lado permanecido, ao lado vivido.
Então este que vemos pôr a vida sobre tapete recusa - num tempo anterior e inicial - a ideia do tapete, a vontade de tolos arrolamentos, os desperdícios de chances, e vê a vida exatamente enquanto ela passa, e evita um futuro onde precise acender faróis na popa de sua embarcação, observando o passado sem conseguir remontá-lo à custa de seus arrependimentos. E esse homem que evitou os tapetes da imaginação será um amante prático e pouco reflexivo, mas viverá seu amor, e saberá que o homem que estendia tapetes era pensativo demais e perdera seu grande amor entre os anos enevoados que passaram.
Surgirá assim um terceiro homem, que é os outros dois, pois os três são um e um é os três, e fará a pergunta: o que se leva dessa vida e o que nela se deixa que frutifique? E não saberá responder, ficará olhando um céu desabitado e de raro auxílio, olhará depois o chão em que pisa, e passará dias, meses, anos, consumirá talvez sua existência a pensar sobre a melhor resposta, e a vida passará.
Mas são três homens, mesmo que um só seja. Todos têm suas razões, e combinaram, por pudor moral, não julgarem um ao outro, mesmo que a cabeça de todos, que é uma cabeça só, viva aflita pela dúvida e tenha vontade de amar, mas amar de adoração."
Pedro Moacyr Pérez da Silveira é professor de Filosofia do Direito, na Universidade Federal de Pelotas -RS.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Amor como em Casa
"Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa."
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
"Você tem obrigação de ser fiel ao que você viveu."
Nélida Piñon
terça-feira, 21 de outubro de 2014
"Quando o olhar adivinhando a vida Prende-se a outro olhar de criatura O espaço se converte na moldura O tempo incide incerto sem medida."
Paulo Mendes Campos, in "A Palavra Escrita", do livro Poemas de Paulo Mendes Campos, Ed. Civilização Brasileira.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Há três anos nascia este espaço com o apadrinhamento afetivo da minha amiga Ana Lúcia. Neste período, fiz amigos novos, cultivei os antigos e recebo visitas de quem só passa para dar uma olhadinha. Sempre foi um espaço despretensioso, sem rótulos, sem calendários, apenas um espaço para os bons registros e um tantinho de mim, em cada postagem. Nestes tempos, em que as redes sociais tomaram o espaço dos blogs, pela praticidade de reunir tudo em um só lugar, é gratificante perceber que ainda recebo visitas constantes e fiéis. Agradeço, comovida, à Ana Lúcia que insistiu para que eu me permitisse estar aqui, e a todos os amigos que me prestigiam, com muito carinho. Que possamos nos encontrar por aqui, enquanto houver poesia, nesta Vida. Muito obrigada!
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
não sei navegar nos teus silêncios "(se um mapa houvesse, perder-me-ia, na urgência de os ler) distantes, opacos, ensurdeço no esforço de te entender. insondáveis as águas deste imenso vazio baixo as velas e encosto-me à deriva das marés que há na tua voz. até um dia acostar a ti."
Rosa Maria Ribeiro
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
" - Se te fores de mim, não volta. Mas, se voltares, não procura por mim onde me deixaste. Estarei já perto de onde começaste teu retorno, pois atrás de ti terei ido desde tua partida com todo o desejo do meu coração, com todas as palavras de súplica que conheço e com o corpo incendiado pela febre de uma paixão sem fim. Retorna então ao lugar para onde foste, que por este caminho estarei a andar, e chegarás então por trás de mim, e não pela frente, como estaria eu a pensar. Mas isso não importará, estarei tão tomado pelo encanto de te encontrar que já não pensarei sobre de onde vens, mas apenas que vieste".
Há muitos anos ele disse isso a ela. Ele continua a andar por aquele caminho, na esperança de vê-la chegar por qualquer quadrante.
Seu coração ainda é feito de fogo."
Pedro Moacyr Pérez da Silveira Professor de Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pelotas.
sábado, 11 de outubro de 2014
"Há quem fale em séculos. Eu só penso no minuto que passa."
Mário da Silva Brito, poeta brasileiro, em 'Areia na Ampulheta', do livro 'Jogral do Frágil e do Efêmero' (Ed. Civilização Brasileira)