quarta-feira, 15 de outubro de 2014
não sei navegar nos teus silêncios
"(se um mapa houvesse,
perder-me-ia, na urgência
de os ler)
distantes, opacos,
ensurdeço
no esforço de te entender.
insondáveis as águas
deste imenso
vazio
baixo as velas
e encosto-me à deriva das marés
que há na tua voz.
até um dia
acostar
a ti."
Rosa Maria Ribeiro
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
" - Se te fores de mim, não volta. Mas, se voltares, não procura por mim onde me deixaste. Estarei já perto de onde começaste teu retorno, pois atrás de ti terei ido desde tua partida com todo o desejo do meu coração, com todas as palavras de súplica que conheço e com o corpo incendiado pela febre de uma paixão sem fim. Retorna então ao lugar para onde foste, que por este caminho estarei a andar, e chegarás então por trás de mim, e não pela frente, como estaria eu a pensar. Mas isso não importará, estarei tão tomado pelo encanto de te encontrar que já não pensarei sobre de onde vens, mas apenas que vieste".
Há muitos anos ele disse isso a ela. Ele continua a andar por aquele caminho, na esperança de vê-la chegar por qualquer quadrante.
Seu coração ainda é feito de fogo."
Professor de Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pelotas.
sábado, 11 de outubro de 2014
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Poema Preso
Viviane Mosè
"A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo."
Mosé, Viviane. Pensamento Chão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
"Advierte Sancho —respondió don Quijote— , que hay dos maneras de hermosura: una del alma y otra del cuerpo; la del alma campea y se muestra en el entendimiento, en la honestidad, en el buen proceder, en la liberalidad y en la buena crianza, y todas estas partes caben y pueden estar en un hombre feo, y cuando se pone la mira en esta hermosura, y no en la del cuerpo, suele nacer el amor con ímpetu y con ventajas.
Yo, Sancho, bien veo que no soy hermoso, pero también conozco que no soy disforme, y bástale a un hombre de bien no ser monstruo para ser bien querido, como tenga los dotes del alma que te he dicho."
[Fragmento do segundo capítulo LVIII,
Dom Quixote de La Mancha.]
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Não é bom negar o amor, como Pedro a Jesus. Três vezes: não o conheço, não o conheço, não o conheço. O amor tem caminho próprio. Estará lá.
"(...)A te che sei il mio grande amore
Ed il mio amore grande
A te che hai preso la mia vita
E ne hai fatto molto di più
A te che hai dato senso al tempo
Senza misurarlo
A te che sei il mio amore grande
Ed il mio grande amore
A te che io
Ti ho visto piangere nella mia mano
Fragile che potevo ucciderti
Stringendoti un po'
E poi ti ho visto
Con la forza di un aeroplano
Prendere in mano la tua vita
E trascinarla in salvo
A te che mi hai insegnato i sogni
E l'arte dell'avventura
A te che credi nel coraggio
E anche nella paura
A te che sei la miglior cosa
Che mi sia successa
A te che cambi tutti i giorni
E resti sempre la stessa
A te che sei
Semplicemente sei
Sostanza dei giorni miei
Sostanza dei sogni mie(...)"
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
"(...)Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."
ZERO GRAU DE LIBRA
Caio Fernando Abreu
"Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra.
sábado, 27 de setembro de 2014
"Até os 30 anos, eu carregava 50 certezas absolutas. Venho perdendo, em média, uma por ano. Se minhas contas estiverem certas, não terei nenhuma certeza categórica por volta dos 80 anos e passarei, então, a viver na dúvida.(...)"
E eu que sempre defendi minhas certezas, hoje sinto, da mesma forma. Elas já rareiam, são poucas, bem poucas. As que restaram movem meus pensamentos em direção à dúvida. Minhas certezas não geraram destino, puseram-me nos trilhos, nem sempre escolhidos. Aos vinte anos, idealista e romântica, tinha todas as certezas do mundo. Aos trinta, algumas se dissiparam no caminho. Aos quarenta a Vida trouxe-me um pacote de incertezas e o que era definitivo e sólido transformou-se em tecido delicado de possibilidades. Agora, bem perto mais perto dos cinquenta anos, bordo as horas e os dias. Ir, além, é pura possibilidade.
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