Que horas são?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ao entardecer de Boston



"Você envelhece, inexoravelmente envelhece, mas, em compensação, a experiência torna-o mais resistente. Você já viu tanta coisa, já sentiu tanta coisa, está preparado para qualquer contingência. Você é mais velho, sim, mas é menos tolo.

Em tese. A realidade não tem sido essa, pelo menos não a minha. Sinto-me mais sensível do que nunca com o inapelável passar dos anos, o que, confesso, me incomoda.

Bem, agora cá estou, vivendo nos Estados Unidos por essas surpresas da vida. Sabia que, nas primeiras semanas, seria duro. Tenho de me virar numa língua que não é a minha, num lugar desconhecido e estando totalmente sozinho — minha mulher e meu filho ainda levarão algumas pastosas semanas para vir.

No entanto, preparei-me para todas as dores físicas e anímicas. E estava me saindo bem, estava tudo dentro do planejado. Até que, dias atrás, saí para comer algo ao entardecer suave de Boston em junho. Caminhava pela Harvard Street admirando a paisagem, os grandes sobrados de madeira, as ruas arborizadas e floridas, e resolvi ligar para casa. Atendeu o meu filho. A felicidade aqueceu meu peito quando ouvi sua voz de menino pequeno. Começamos a conversar, conversamos bastante, só que, de repente, sem motivo aparente, ele rompeu em pranto. Não era choro de manha, era choro sentido, de soluços. Choro de tristeza. Perguntei por que ele chorava e ele respondia, resfolgando:

— Não sei, papai…

Pedi que parasse de chorar, e ele repetia:

— Não consigo, papai. Não consigo parar de chorar…

Compreendi que ele estava com saudade e não conseguia discernir o que sentia. A mesma saudade que me confrangia o coração a cada noite, antes de dormir. Demorei alguns minutos para consolá-lo. Consegui, enfim, e desliguei o telefone. Continuei caminhando pela Harvard Street sem saber exatamente o que pensar. E então, bem na minha frente, um menininho e seu pai saíram de dentro de uma loja, um café, sei lá. O menininho era pouco mais novo do que o meu filho. Estava uns dois passos na frente do pai. Fez menção de correr e gritou:

— Me pega, papai! Me pega!

E o pai riu, fazendo menção de correr atrás dele, e ambos riram. Fiquei olhando para a cena. Não havia motivo plausível, mas aquilo me deixou ligeiramente comovido. Uma bola de sentimento subiu-me pela garganta, interrompeu-me a respiração e aí, da forma mais idiota do mundo, meus olhos se encheram d’água. Comecei a chorar. Como meu filho, minutos antes, não conseguia parar de chorar. Chorei baixinho, caminhando pela Harvard Street, ao entardecer amarelo pálido de Boston, e pensei que a idade não me defende de nada. Deveria haver uma casca neste meu peito, deveria haver uma capa protetora sobre mim, feita com a costura de todos esses anos. Mas, não. Não. A idade não me defende de nada."

Davi Coimbra

[David Coimbra é escritor, colunista de Zero Hora, além de comentarista da TVCOM, Rádio Gaúcha e Atlântida.]



terça-feira, 24 de junho de 2014

ESPERANÇA É O QUE MAIS DÓI



Fabrício Carpinejar



"É me acomodar no avião e já adormeço. Nem espero o comissário fechar as portas.

Durante conexão de Galeão para Salgado Filho, escorado na janela, pronto para babar, escuto uma mulher chorando na poltrona da frente.

Sempre vou acordar quando ouvir uma mulher chorando. Meu sono não resiste a mulher chorando.

Ela soluçava ao telefone:

– Você disse que a gente moraria junto depois que terminasse seu treinamento. Você mentiu, você só está me enrolando com promessas. Promessa dói. Esperança dói.

Não alcançava qual o contexto da conversa, mas sua frase produziu muito sentido.

Esperança dói!

Eu quase chorava junto. Ela estava coberta de sentimento mais do que coberta de razão.

Concordava com ela: não minta com esperanças. Minta com qualquer outro sentimento, menos com esperança. Não ofereça esperança se não acredita na relação.

Pense bem antes de falar, pense se realmente deseja cada verbo. Cuidado com aquilo que sonha em voz alta.

Todas as palavras são estrelas cadentes. Prometer é sério, prometer é se comprometer.

Não adianta dizer que só falou, alegar que não fez nada de errado e lavar as mãos no vento. Falar é fazer.

Entenda que a esperança é o que mais machuca. Não há maior tortura do que gerar esperança em vão: é oferecer para tirar.

Não estimule projetos se não está disposto a cumprir, se não é sincero, se não é verdadeiro.

Não diga da boca para fora pelo prazer da hora, pelo romantismo, pelo arrebatamento.

Imaginar já é concretizar. Se não tem segurança com sua companhia, não iluda. Não fique fantasiando casa própria, filhos, cachorro, viagens ao Exterior. Não insufle o porvir para agradar. Não disfarce o pouco sentimento com a eternidade. Não chame o futuro impunemente. Não apele para a emoção à toa.

A fantasia é uma responsabilidade do casal. Pois o amor é o que se vive somado ao que se conversa somado ao que se planeja.

Ao fortalecer intenções, permite que ela ou ele passe a esperar dali por diante.

Somos crianças no amor, ansiosas pela confirmação das expectativas. Enxergamos o que imaginamos, trabalhamos para conseguir o que imaginamos.

Esperança é também parte importante do namoro. Esperança é também lembrança do namoro. Esperança é também memória do namoro. Esperança é também realidade do namoro.

O que foi idealizado a dois é um patrimônio da intimidade, um marco da confiança.

Ninguém sofre numa separação por aquilo que aconteceu, sofrerá por aquilo que não vai mais acontecer. Sofrerá pela perda da esperança mais do que pela perda do amor."

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 24/6/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 17839




                         Bernardo Sassetti - Promessas








"Como buen soñador, confundi la realidade com la ilusion."





(registro de um viajante chileno, em um hostel, aqui, em Porto Alegre - (via jornal Zero Hora)






segunda-feira, 23 de junho de 2014





O ÚLTIMO BRINDE




(Tradução do russo de Lauro Machado Coelho)




"Bebo à casa arruinada,

às dores de minha vida,

à solidão lado a lado

e à ti também eu bebo –

aos lábios que me mentiram,

ao frio mortal nos olhos,

ao mundo rude e brutal

e a Deus que não nos salvou."





Anna Akhmátova – 27/3/1934




domingo, 22 de junho de 2014

sábado, 21 de junho de 2014

Wisława Szymborska





POSSIBILIDADES



"Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo. 
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta
àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade
de que a existência tem sua própria razão de ser."

Wisława Szymborska



Wisława Szymborska (1923-2012). Escritora e poeta polonesa, destacou-se com uma obra que tem como tema as vicissitudes da Polônia moderna. Emprega uma linguagem simples e coloquial, herança do realismo social que dominou a Europa oriental, mas sua modernidade se revela no tom irônico e na complexidade formal de muitas de suas poesias. Recebeu o Nobel de Literatura de 1996. Fonte: Wikipédia


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Amor & sexo em tempos de Copa



[ Xico Sá e sua sensibilidade para narrar a Vida. Este é um texto sobre "amor nos tempos da Copa", mas reflete, com clareza, os descaminhos do amor nos dias comuns. ]



"Na festa da Copa, o “a gente se vê”, tema recorrente aqui neste blog, se torna mais grave ainda.


A fuzarca ludo-etílica pode até estimular novos possíveis casais, promover bons encontros, flertes, namoricos, rapidinhas…

Sem se falar nas ficâncias globalizadas em geral –os argentinos e holandeses, por exemplo, estão em alta com as gazelas na cidade do Rio de Janeiro no momento.

O xodó de Copa, nacional ou estrangeiro, é o maior festival de “a gente se vê”de todos os tempos.

Nada fica, nem o amor daquela rima antiga.

Fica tudo na base do “a gente se vê”… E adeus!

Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poeira da estrada, numa tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida.

Óbvio que o mês da Copa só amplia um sintoma moderno da época.

Homens e mulheres vivem hoje a arte do desencontro, com ou sem a festa futebolística.

“A gente se vê.” Pronto, eis a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo do escritor Edgar A. Poe.

A gente se vê. Corta para uma multidão na avenida Atlântica, ai de mim Copacabana.

A gente se vê, corta para uma manifestação na avenida Paulista, com ou sem vândalos, com caras limpas ou mascarados, mas sempre com o gás lacrimogêneo para aumentar o chororô do cronista.

A gente se vê. Corta para uma saída de Castelão ou Mineirão lotadose.

A gente se vê. Corta para “onde está Wally”.

De um casinho de Copa, tudo bem, acontece, faz parte do jogo.

Na normalidade dos dias, porém, nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.

Jovens mancebos, evitem essa sentença mais sem graça. Raparigas em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar cigarro, o velho king size filtro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito, o desprezo on the rock´s.

A gente se vê uma ova. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se vê é a mãe, ora, ora.

Como canta o Rei, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só…

Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal. Alô STF, homens de toga, ponham na pauta.

A gente se vê é pior do que a gente se esbarra por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais abolirá a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. YO NO TE QUIERO MAS, como na camiseta mexicana que ganhei de una hermosa chica. Dizer foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se vê é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se vê é a vovozinha, ora!

Seja homem, seja mulher, diga na lata.

Não engane a moça, que a moça é fino trato, que não merece desdém.

A fila anda, jogue limpo.

A gente se vê. Corta para uma multidão no show do Morumbi. A gente se vê. A gente se vê. Corta para a multidão no Campo de Marte. A gente se vê. Corta para o formigueiro do Maracanã. A gente se vê. Corta para a São João com a Ipiranga. A gente se vê. Corta para um engarrafamento gigante na marginal do Tietê…


A gente se vê. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina!"

XICO SÁ 



terça-feira, 17 de junho de 2014

Um poema para inspirar os dias mais cinzentos.


If


If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools; 

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!" 

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!"

Rudyard Kipling



Se

"Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filh
o! "



(
Rudyard Kipling, na t
radução do Guilherme de Almeida)