Que horas são?

segunda-feira, 19 de maio de 2014




O amor acaba

Paulo Mendes Campos

Sim, o amor acaba. Onde? Quando? Como?

Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; e acaba também em cafés engordurados, diferentes dos parques dourados onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o es­carlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois de uma noite votada a uma última ale­gria, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois pol­vos de solidão; como se as mãos soubessem an­tes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg entre fri­sos de alumínio e monótonos espelhos paralelos; e no olhar do eterno cavaleiro errante que pas­sou pela pensão; às vezes acaba o amor nos bra­ços crucificados de Jesus, filho torturado e com­padecido de todas as mulheres; no elevador, mecanicamente, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro da casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode aca­bar; no telefone, onde tantas vezes o amor co­meça, o amor acaba; na compulsão da simplici­dade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por al­guns dias, mas não floresceu, abrindo parágra­fos de ódio inexplicável entre o pólen e o gine­ceu de duas flores; em apartamentos refrigera­dos, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na simples poeira que vertem os crepúsculos, ca­indo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor acaba; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, e o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fanta­sia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, na mesma boate, com o mesmo drinque; diante dos mesmos cisnes; e muitas ve­zes acaba em ouro e diamante, dispersado entre os astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris. Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que cobre o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simples­mente esquecido como um espelho de bolsa, que permanece reverberando sem razão, até que al­guém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter exis­tido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer hora o amor acaba.



Publicado na revista Manchete em 16.05.1964.


(Li, no site do Instituto Moreira Salles)


domingo, 18 de maio de 2014






"Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos." 


                               
                             (Henri Miller)



Uma tarde de outono, na Livraria Cultura, em São Paulo.





“Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. 
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido. 
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa de salvar-se.”


Almada Negreiros, início de A Invenção do Dia Claro (1922)


terça-feira, 13 de maio de 2014

SEJA HOMEM PARA TERMINAR



"Se vai se separar, não arrume desculpas ou evasivas.

Não tente colocar a culpa no outro para ainda se sair como vítima.

Não transfira sua decisão, muito menos queira repartir a culpa.

Não fique cavando erros para sair ileso e diminuir sua pena.

Não procure aliviar a dor com eufemismos.

Não torture com falsas promessas para ganhar tempo, não sustente planos conjuntos.

Não escolha o melhor dia para evitar conflitos. Não há melhor dia para se despedir. Todo dia é ruim. Todo dia é triste.

Não diga “eu te amo” por convenção, como se fosse um cumprimento, para despistar o que já definiu em segredo.

Não perdure cobranças se já não deseja mais nada.

Não discuta por horas a fio por um preciosismo ou um deslize se não tem paciência.

Não imponha sua vontade se não tem vontade.

Não banque o tirano, o ditador, para encobrir o crime do desamor.

Não conte aos amigos o que sente se não conta antes para sua companhia.

Não mergulhe na omissão sob a alegação de que ela não vai entender.

Não pense por ela, não fale por ela, não está mais conectado para traduzir o que ela deseja.

Não faça fiado com o silêncio, não faça empréstimo com as lembranças, não invente de pagar as palavras com juros.

Seja direto, didático, claro.

Que encontre a coragem da simplicidade. A confusão neste momento gera covardia.

Sem teorias, sem defesa, sem chantagem, sem adiamentos.

Exponha que não ama mais ou o que está envolvido com uma nova pessoa ou que não tem mais interesse.

Mas assuma o ponto final, não finja que é uma vírgula.

Metade dos traumas da separação é que alguém saiu sem explicar o motivo.

Metade dos traumas do divórcio é que alguém ficou com aquele medo preguiçoso de transparecer o fim.

E quem é deixado para trás passa o resto dos dias buscando entender o que aconteceu, remoendo o desfecho, carregando o ressentimento de que havia como continuar e inventando motivos.

Não dê trabalho de ressurreição a quem dividiu a vida com você, dê a verdadeira causa do óbito.

É uma injustiça sumir, desaparecer, virar as costas.

O coração é um cartório.

Tem que reconhecer firma. Na entrada e na saída de qualquer relacionamento.

Caso foi homem para declarar o amor, tem que ser homem para encerrar o amor.

Caso foi homem para começar o amor, tem que ser homem para terminar o amor."




Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 11/5/2014 Edição N° 17793



segunda-feira, 12 de maio de 2014



París, 9 de septiembre de 1971

"Mi querida, tu carta de julio me llega en septiembre, espero que entre tanto estás ya de regreso en tu casa. Hemos compartido hospitales, aunque por motivos diferentes; la mía es harto banal, un accidente de auto que estuvo a punto de. Pero vos, vos, ¿te das realmente cuenta de todo lo que me escribís? Sí, desde luego te das cuenta, y sin embargo no te acepto así, no te quiero así, yo te quiero viva, burra, y date cuenta que te estoy hablando del lenguaje mismo del cariño y la confianza –y todo eso, carajo, está del lado de la vida y no de la muerte. Quiero otra carta tuya, pronto, una carta tuya. Eso otro es también vos, lo sé, pero no es todo y además no es lo mejor de vos. Salir por esa puerta es falso en tu caso, lo siento como si se tratara de mí mismo. El poder poético es tuyo, lo sabés, lo sabemos todos los que te leemos; y ya no vivimos los tiempos en que ese poder era el antagonista frente a la vida, y ésta el verdugo del poeta. Los verdugos, hoy, matan otra cosa que poetas, ya no queda ni siquiera ese privilegio imperial, queridísima. Yo te reclamo, no humildad, no obsecuencia, sino enlace con esto que nos envuelve a todos, llámale la luz o César Vallejo o el cine japonés: un pulso sobre la tierra, alegre o triste, pero no un silencio de renuncia voluntaria. Sólo te acepto viva, sólo te quiero Alejandra.

Escribíme, coño, y perdoná el tono, pero con qué ganas te bajaría el slip (¿rosa o verde?) para darte una paliza de esas que dicen te quiero a cada chicotazo."

Julio



domingo, 11 de maio de 2014

"A Revolução da Atenção"







"Não importa quão ocupados possamos estar, ou pensemos estar, ninguém nos paga o suficiente para se dar ao luxo de demandar nossos recursos mentais, todos os momentos do dia. 

Até mesmo durante o trabalho podemos dedicar quinze segundos aqui e sessenta segundos ali para equilibrar nossa atenção, concentrando-nos em nossa respiração. Podemos deixar nossos olhos abertos e nos sentarmos calmamente por alguns instantes, sem chamar a atenção. 

Podemos fazer isso em nosso local de trabalho, enquanto estamos na fila do banco, ou esperando o ônibus. Existem muitas breves ocasiões, desde que nos levantamos pela manhã até quando vamos dormir à noite, onde podemos “salvar o nosso dia” com uma “pitada” de atenção plena à respiração. 

Cada vez que fazemos isso, podemos sentir imediatamente o efeito revigorante em nossos corpos e em nossas mentes. Dessa forma, podemos começar a integrar a qualidade da percepção, que cultivamos durante a meditação, com a percepção que trazemos para nossas atividades no mundo durante o dia."



Alan Wallace | "A Revolução da Atenção" (tradução de Jeanne Pilli)  



                                                 (e eu vejo, assim...)




"Não vemos as coisas como são. Vemos as coisas como somos." 


                                                                                                                      Anaïs Nin


 



"O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. O oposto da arte não é a feiúra, é a indiferença. O oposto da fé não é a heresia, é a indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença"

                                                                            Elie Wiesel


E eu digo:

E de indiferença em indiferença, constrói-se o fim de algumas relações.  A indiferença é egoista, não vê o outro, e, se o seu status quo está perfeito, dane-se os que os rodeiam. Indiferença para as necessidades físicas do outro, para as necessidades emocionais, para os pedidos de ajuda e verdade nas palavras. Indiferença para tratar com elegância aquilo que não queremos mais. Não há generosidade na indiferença, por óbvio. É apenas a gélida indiferença que toma a dianteira e tenta se travestir de outras coisas, mas nunca será. Será apenas  a indiferença. Reconheça-a, imediatamente, e aprenda a lição: não a acolha. Rejeite! 

Rodeie-se de pessoas interessadas na sua vida, nas suas emoções e problemas, de pessoas dispostas as concorrer para que as coisas dêem certo e ganhemos, todos, um tantinho de felicidade. Rodeie-se de pessoas que  costumam querer saber da tua vida, para acrescentar uma cor nova, um som novo, um sorriso, um abraço que acolhe, quem sabe até, um novo brilho no olhar.