Que horas são?

sexta-feira, 14 de março de 2014





"Para te visitar esquecerei a terra e apagarei as estrelas. E irei pelos teus olhos, até o mundo voltar a ter princípio."

                                                                 Mia  Couto





segunda-feira, 10 de março de 2014









A mulher sagrada





"A Pilar del Río é uma mulher sagrada. Vários amigos perguntam-me pelos seus amores, admiram-na à distância cheios de encanto e receio. Todas as mulheres intimidam os fracos. Algumas intimidam os fortes. Raríssimas intimidam heróis. A Pilar é desta última espécie.

Alguns amigos apaixonam-se por ela sem coragem para se medirem com a sua inteligência, beleza ou elegância. Guardam-na na terra dos sonhos ou nesse lugar meio desligado da realidade onde estão as figuras do cinema e das capas das revistas estrangeiras.

Sacralizamos as pessoas pelo que simbolizam. A Pilar é a memória viva de um dos homens mais importantes de sempre da nossa cultura mas é, sobretudo, um ser humano cidadão, reclamando para si uma identidade sem paralelo. Quando pensamos em como é o mundo, usamos a Pilar para aludir à evolução, à democracia e à liberdade, como um nome que pode sumariar os nomes de mulheres e homens que, por toda a história, esperaram por um respeito maior.

Eu compreendo bem a ansiedade ao pé da Pilar. Também fico ainda atrapalhado, autoconsciente, a querer ser mais inteligente, ter melhores palavras, mais cabelo, menos barriga, a camisa bem passada, estar mais perfumado. Compreendo a ansiedade e leio as entrevistas que a Pilar dá, que são invariavelmente lições de grande conversa em que efectivamente muito do que acreditamos pode mudar.

Que segurança pode ter um tipo perante uma mulher capaz de o mudar? E, ao mesmo tempo, haverá maior fortuna do que a de encontrar uma mulher que nos fascine o bastante para que corrijamos tudo e sejamos melhores?

Gostar de alguém é sempre queremos ser melhor. Isso é basilar. A questão está em saber se melhoramos o suficiente para resistirmos quando comparados com a mulher em causa.

Haverá maior fortuna do que a de encontrar uma mulher que nos fascine o bastante para que corrijamos tudo e sejamos melhores?

Uma e outra vez, quando me perguntam se sei da Pilar, se há algum homem novo na sua vida, porque o tempo vai passando e ela é uma mulher muito nova e tão impressionante e a vida é recomeçar a cada dia, eu respondo que aguardo notícias. Pareço aguardar novidades acerca de algum cavaleiro educado que resgate uma donzela da sua torre, do seu altar, da extrema virtude ou da saudade infinita. Faço contos antigos de embalar. Gosto disso. Penso em cavaleiros muito corajosos que tenham valor humano bastante para derrubar todas as barreiras.

Encontro homens e mulheres que pensam na Pilar assim, como impecavelmente sentada, quieta, profunda, no centro de uma sala limpa, infinita, luminosa, branca, para adoração. Uma mulher sagrada, de facto. Que é o mesmo que dizer consumada, definida, completa, absoluta. Deve ser o mais perto do perfeito que possamos conceber e deve ser por isso, sem dúvida, que nos assusta. É uma demasia. Ao menos durante um tempo, enquanto estiver sozinha, a Pilar é uma demasia. Precisará da sua e da coragem de um grande homem para regressar à perdida e puramente humana condição.

Todas as viúvas de grandes homens que conheci trazem uma companhia invisível. Poucas são as que souberam afastar essa dimensão quase fantasmática de sobreviverem àqueles que acompanharam anos a fio. Essa companhia invisível somos nós que a percebemos. Manifesta-se na ansiedade que guardamos de que ainda nos tragam algo novo, nunca ouvido, não sabido, de quem já não está. A admiração por alguém que morreu resulta também na expectativa de que os seus sejam ainda uma sua emanação. E são. Mas isso não pode esgotar todo o seu propósito. Isso não pode esgotar quem sobreviveu.

Lembro-me de entrar na casa de Ângela de Oliveira, viúva de Carlos de Oliveira e de ela falar do Carlos como se fosse um Carlos gente, gente como a gente. Alguém. De cada vez que dizia o seu nome, eu achava que ele podia surgir de uma porta. A normalidade do seu nome na boca daquela senhora fazia com que ele estivesse presente. Era arrepiante e lindo. Bebemos água. Até a água me pareceu mexer sem que lhe tocássemos.

A Pilar diz José. O José está por ali. Sabemos bem disso. Mas Saramago não ia em conventos. E o amor é mutante. Não se perde. Imagina-se de outra forma. "   

Valter Hugo Mãe


publico.pt/portugal

domingo, 9 de março de 2014



"Quem me quiser há-de saber as conchas

a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."


ROSA LOBATO FARIA ( 1932-2010)



domingo, 2 de março de 2014

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


Nico partiu, mas deixou boas sementes. Aos poucos, vamos descobrindo as belezas que ele semeou, no caminho. Nico Nicolaiewsky, para celebrar a Vida!


                              









www.studioclio.com.br

Nico Nicolaiewsky


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

(a lua que eu vejo)



"(...)Como diz o velho Navaia: nós nada descobrimos. As coisas, sim, se revelam."





[Do livro "A Varanda do Frangipani", Mia Couto]



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

"Um trechinho do livro “Sempre Zen” (1989), de Joko Beck:"


       [Charlotte Joko Beck (1917-2011) foi         uma mestra Zen, dos Estados Unidos]





“O que de fato queremos é uma vida natural. Mas nossas vidas são tão artificiais que essa busca, no começo, é bastante difícil.

Apesar de estarmos começando um novo caminho, trazemos as mesmas atitudes que tínhamos anteriormente: não achamos mais que a resposta está em um novo carro de luxo, mas sim em alcançar a iluminação. Continuamos na mesma corrida, apenas trocamos o troféu. Agora temos um novo “se ao menos”: “se ao menos eu conseguisse entender um pouco melhor o universo, então eu seria feliz”; “se ao menos eu conseguisse atingir uma pequena experiência de iluminação, então eu seria feliz”, etc, etc.

Muitas de nós acreditamos que se tivéssemos um carro maior, uma casa mais bonita, férias mais longas, um patrão mais compreensivo, ou um parceiro mais interessante, nossas vidas seriam muito melhores. Não há quem não pense assim.

Passamos a vida pensando que existe o “eu” e que existe essa outra coisa separada, “o tudo que não sou eu”, que nos causa alternadamente dor ou prazer. Assim, evitamos tudo que nos fere ou desagrada ou causa dor; e buscamos ou toleramos ou aceitamos tudo que nos agrada ou nos envaidece ou nos causa prazer, fugindo de uns e perseguindo outros. Sem exceção, todos fazemos isso.

Ficamos apartados da vida, olhando para ela de fora para dentro, analisando, fazendo cálculos como “e o que eu ganho com isso? será que vai me trazer prazer ou conforto? será que devo fugir?” Sob nossas fachadas agradáveis e amistosas, existe muita ansiedade.


Se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de cabeça pra baixo, o que é esse barco vazio? O que sobra? Quem somos nós?”



Texto extraído do artigo "A solidão de Narciso", do Alex  Castro, lá no "Papo de Homem".


Papo de Homem  (Clique e conheça)




domingo, 2 de fevereiro de 2014






INTERIOR



"Abeiro-me de mim
pelo silêncio

Vou atrás
do sobressalto
no sobressalto do vento

Encontro-me 
na tempestade
onde a saudade se inventa

Sou a dúvida constante
onde se perde a tormenta"

(inédito)



Maria Teresa Horta