Que horas são?

domingo, 17 de novembro de 2013




Carta 36

"Coloca as tuas mãos no meu rosto, agora. Douradas de amor. Não todo, claro. Só o-certo-amor. Aquele que nos apraz. Lendário. Inventado de madrugada. Na melancolia mansa das tuas pálpebras. Na intimidade branca das minhas pupilas. Essas, onde correm todos os lugares.Todos os rios. Todos os sítios. Ousando fazer coisas. Ousando dizer coisas. Semeando por aí, tão perto de nós, jornadas de campos longínquos. Adiados dentro de mim.
E, por cima: o meu sorriso. Aquele que dizias ser o teu jardim. A crescer. A florir. A prolongar-se nos teus olhos, que a certa altura emudecias. De tal forma que fazias parte dele, e nessa parte ele é, ainda, autenticamente Teu!"


ANA MARIA DOMINGUES, in CARTAS A ROMEU (Ed. de autor, 2013)





 





sábado, 2 de novembro de 2013

Frida e Diego

"O abraço amoroso do universo a Terra (México), Diego, eu e Señor Xolotl"



Carta da Frida para Diego:



Meu Diego:

Espelho da noite.


"Seus olhos verdes de espada dentro da minha carne. Ondas entre nossas mãos. Você todo no espaço cheio de sons – na sombra e na luz. Você será chamado de AUXOCROMO – o que atrai a cor. Eu, CROMÓFORO – o que dá a cor. Você é todas as combinações de números. vida. Meu desejo é entender linha forma movimento. Você preenche e recebe. Sua palavra cruza todo o espaço  alcança minhas células que são minhas estrelas de muitos anos retidas em nosso corpo. Palavras encadeadas que não poderíamos dizer exceto nos lábios do sono. Tudo estava cercado pelo milagre vegetal da paisagem do seu corpo. Sobre sua forma, ao meu toque os cílios das flores, os sons dos rios respondem. Todas as frutas estavam no suco de seus lábios, o sangue da romã…do sapoti e do puro abacaxi. Apertei você contra meu seio e o prodígio de sua forma penetrou meu sangue através das pontas dos meus dedos. O odor da essência do carvalho, a memória da noz, do hálito verde da cinza. Horizontes e paisagens – que atravessei com um beijo. Um esquecimento de palavras formará o idioma exato para entender os olhares de relance de seus olhos fechados.

Você está presente, intangível, e você é todo o universo que eu formo no espaço do meu quarto. Sua ausência jorra tremor no som do relógio, na pulsação da luz; seu hálito através do espelho. De você até minhas mãos eu percorro todo o seu corpo, e estou com você num minuto e estou com você num momento, e meu sangue é o milagre que viaja nas veias do ar do meu coração para o seu."

(A MULHER)












(O HOMEM)



"O milagre vegetal da paisagem do meu corpo está em você a natureza toda. Eu a atravesso em um voo que com meus dedos acaricia as colinas arredondadas…os vales, envolve-me a ânsia pela posse e pelo abraço dos galhos macios, meu corpo tudo parece o frescor de folhas tenras. O orvalho é suor de um amante sempre novo. Não é amor, nem ternura, nem afeto, é a vida em sua plenitude, a minha, que encontrei quando a vi em suas mãos, em sua boca, em seus seios. Na minha boca eu sinto o gosto de amêndoa de seus lábios. Nossas palavras jamais saíram. Somente uma montanha conhece as entranhas de outra montanha. Às vezes sua presença flutua continuamente, como se envolvesse todo o meu ser numa espera ansiosa pela manhã. Percebo isso quando estou com você. Nesse momento de quietude ainda pleno de sensações, minhas mãos estão mergulhadas em laranjas, e meu corpo se sente rodeado por você."


segunda-feira, 28 de outubro de 2013




Fui apresentada à Carla Furtado, pela generosidade da minha amiga Lília Tavares. É a poesia de Portugal, que tanto me encanta.
Para conhecer, um pouco mais da poesia da Carla, confiram o seu blog.



UMA PÉTALA QUE PERDIDA



"O meu amor por ti
nunca nasceu…
nascer é ter uma data
E isso, o meu amor não tem.


nasceu quando Alguém mo deu
E eu recebi-o como quem colhia
uma pétala que perdida voava
E em vão tentava
unir-se ao malmequer
De onde se soltara.


Estava quase morta
– A pétala – mas sorria.


E com os seus olhos brandos, esverdeados,
Apontava para a pequenina haste
Da flor que nas minhas mãos ardia
E suplicava por beber daquela seiva que subia.


E agora… eu que tentei
Dar vida ao que nem sei,
Vou morrendo
Ao mesmo tempo
Que na haste morre
A seiva que te dei.
E o nosso tempo
É somente o tempo
Da tua nossa seiva
Que gerei."


@ Carla Furtado Ribeiro, "Em Silêncio", Chiado Edit. , Lisboa 2013





domingo, 27 de outubro de 2013

A primeira biografia não autorizada



"– Senhor?

– Pois não?

– Adão na linha dois.

– Pode passar.

– Sim, Senhor. Só um minuto.

– Alô?

– Oi, Adão. Tudo bem?

– Mais ou menos.

– O que houve?

– O Senhor conhece um bom advogado?

– Advogado?

– Isso.

– Para que você precisa de um advogado?

– Acho que eu vou ser processado pelos macacos. Ontem recebi uma folha de bananeira na minha caverna. Era uma notificação judicial. Eles estão pensando em me processar.

– Mas por qual motivo?

– Porque eu comecei a escrever uma biografia sobre eles.

– Escrever o quê?

– A biografia dos macacos. Não é o Senhor que sempre diz que o que acontece aqui embaixo será extremamente importante na história?

– Sim.

– Estava pensando sobre isso e pensei em contar a história dos animais aqui embaixo. E decidi começar pelos macacos. Afinal, tudo o que acontece aqui embaixo está relacionado a eles, de um jeito ou de outro.

– Bem, isso é verdade.

– Então comecei a colher alguns depoimentos. Mas os macacos descobriam que eu estava fazendo isso e vieram falar comigo. Eles querem ler as folhas de bananeira antes dos outros animais.

– Como assim?

– Dizem que precisam aprovar tudo que esteja escrito. Eu não concordei.

– Fez bem. O que eles responderam?

– Nada. Um gorila me deu um murro na boca e eles foram embora. Aí, ontem, chegou a folha de bananeira escrita pela advogada deles. E logo depois ela veio falar comigo.

– Mas quem é a advogada deles?

– A serpente. Ela falou que qualquer coisa que for escrita sobre os macacos precisa ser aprovada por eles ou as folhas de bananeira serão confiscadas. Eu disse que tenho o direito de escrever a verdade. Por exemplo, o Senhor sabia que tem um babuíno que odeia os outros macacos secretamente?

– Não.

– Três animais me confirmaram isso. Uma águia, um gambá e um coelho. Dizem que ele está sempre reclamando dos outros macacos, mas não pode fazer nada, porque senão é expulso do bando.

– Mas por que você escreveria isso?

– Porque isso diz algo sobre os macacos. Isso mostra que os macacos não são tão unidos como falam. É uma informação importante para o resto do Paraíso.

– Concordo.

– Bem, a serpente não concorda. Ela quer que esta folha de bananeira seja revisada. Aliás, ela já começou a mexer na minha biografia antes mesmo de eu começar a escrever.

– Como assim?

– Ela deixou claro que a biografia precisa ter alguns capítulos específicos. Um deles precisa abordar como os macacos são superiores aos outros animais.

– Oi?

– Isso mesmo. Em outro capítulo, eu preciso dizer que as contribuições dos macacos para a arte e cultura do Paraíso são insuperáveis.

– Mas quais são as contribuições dos macacos para a arte e cultura?

– Foi exatamente isso que perguntei para a serpente.

– E o que ela respondeu?

– “Procure saber”.

– Soa meio arrogante.

– Concordo.

– Mas o problema é que, se você escrever somente o que eles querem, eles podem inventar qualquer coisa, sendo verdade ou não. Você não devia aceitar isso.

– Sim. Mas eles vão inventar tudo de qualquer jeito.

– Como assim?

– A serpente já avisou que se minha biografia não ficar boa, todas as folhas de bananeiras serão recolhidas e os macacos vão lançar sua própria biografia. Parece que eles já começaram a escrever. Tem até nome: Macacos do Paraíso: a Biografia. Depois vão decidir se lançam a minha ou a deles.

– Espere um pouco. Eles estão fazendo uma biografia. Por que você não pode fazer outra?

– A serpente disse que isso iria deixar os animais do Paraíso confusos. Falou que precisa existir somente uma obra, e oficial. Ou seja, vai ser a Macacos do Paraíso: a Biografia de qualquer jeito, escrita por eles ou por mim.

– Entendi.

– O problema é que eu já havia agendado diversas entrevistas. Uma delas parecia ser bem interessante. É de um leão que diz que um dos macacos escreveu uma canção sobre ele.

– Não sabia disso.

– Na verdade, não é um leão, é um filhote. Um leãozinho.

– Interessante.

– Aposto que seria uma história ótima. Mas não vale a pena fazer estas entrevistas se não vou poder escrever. O que o Senhor acha que eu faço?

– Adão…

– Minha vontade é escrever o livro e, se eles quiserem me processar, azar o deles. Mas preciso de um advogado. Aliás, tive uma ideia. O Senhor é bom com as palavras e…

– Não, Adão.

– Mas é que…

– Eu não sou advogado, Adão.

– Certo.

– Minha opinião é que você tem o direito de escrever quantas folhas de bananeira quiser sobre os macacos ou sobre qualquer animal que seja interessante. Desde que faça isso com responsabilidade.

– Mas entrevistar os animais e buscar provas do que eles falam para ver se é verdade não é ser responsável?

– Sim.

– E eu duvido que os macacos estejam fazendo isso. Aposto que eles vão esconder um monte de coisas! Ou o Senhor acha que eles vão dizer que, quando brigam, ficam jogando cocô um no outro?

– Com certeza, não irão falar.

– E todo mundo sabe disso. É nojento!

– Sim.

– Eles não deviam ter o direito de mudar a história assim.

– Sim. Mas, Adão… nós estamos falando de liberdade de expressão.

– Ei! Eles querem que eu use isso aí no livro!

– Como assim?

– Eles querem que eu diga que eles são grandes defensores da liberdade de expressão. A serpente disse que esse capítulo é bem importante e se não estiver do jeito que eles querem, o gorila vai me pegar. Só que eu nem sei o que é liberdade de expressão. Eu vou apanhar de novo, com certeza.

– Liberdade de expressão é o que dá aos macacos o direito de escrever a própria biografia como acharem melhor.

– Como assim? Eles vão mentir na biografia inteira! Eles têm esse direito?

– Sim. Mas é justamente por isso que eles não podem impedir você de fazer o mesmo. Toda história tem, no mínimo, dois lados. Mentindo ou não, eles não podem proibir você de contar o outro lado. Isso seria censura.

– Sem o quê?

– Censura. É uma palavra só.

– Entendi.

– Mas ainda acho que seria mais fácil se o Senhor os impedisse de mentir.

– Eu não posso fazer isso.

– Bem, o Senhor pessoalmente não… mas…

– Mas o quê?

– Bem… talvez um anjo ou dois…

– Adão…

– Com espadas de fogo…

– Não, Adão. Não posso fazer isso.

– Dizendo aos macacos que é proibido proibir…

– Não, Adão.

– Não faria mal algum um anjo descer até aqui e falar para aquele gorila que “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

– Adão…

– Que tal “Gorila, afasta de mim esse cálice”?

– Não, Adão.

– Tem razão. Acho que ele não iria entender o trocadilho.

– Adão…

– Eu contei para o Senhor que, segundo a serpente, eu devo dizer na biografia que foram os macacos que criaram o Paraíso?

– Oi?

– Os macacos exigem um capítulo dizendo, com detalhes, como eles criaram o Paraíso e todos os animais que moram aqui.

– Como é que é?

– Isso. E que eu sou estagiário deles e cuido do Paraíso que eles criaram.

– Os macacos criaram o Paraíso?

– Eles dizem que sim. Aliás, o Senhor poderia me dar uma entrevista sobre isso. Que tal? Duvido que tenham a coragem de mexer numa frase Sua. Quero ver aquele gorila vir peitar o Senhor!

– Não, Adão. Esqueça. Esse negócio de biografias passou dos limites.

– Sabia que eu devia ter falado sobre esse capítulo no começo da conversa.

– O quê?

– Nada. Estava apenas pensando alto.

– Certo. Esqueça esse negócio de biografias. Vocês aí embaixo não estão prontos para isso.

– Mas a história do Paraíso não poder ser apenas Macacos do Paraíso: a Biografia.

– A história do Paraíso vai ser contada de outra forma. Não se preocupe.

– Certo. Mas esse livro dos macacos pode…

– Eu vou resolver isso.

– Sim, Senhor. Aliás, se o Senhor quiser ajuda para escrever a história daqui, posso ajudar. Entrevistar alguns animais…

– Não, Adão. Vá cuidar do Paraíso.

– Bem…

– E esqueça isso.

– Sim, Senhor.

Deus desligou o telefone e se pôs a pensar. Um livro dizendo que os macacos criaram o Paraíso poderia causar estragos. Não imediatamente, mas no futuro. E estragos enormes. Mas era preciso agir com calma. Não podia incentivar a censura.

Assim, esperou pacientemente até que a biografia dos macacos fosse escrita. E, quando surgiram as primeiras folhas de bananeira assinadas pelos macacos, Deus desceu secretamente até o Paraíso e recolheu todas as cópias. Entregou todas elas a um anjo e pediu que arquivasse as folhas num local longe da vista de todos.

O anjo obedeceu. Guardou todas as folhas de bananeira num arquivo abandonado e, para afastar os curiosos, colocou uma placa “Não mexer! Risco de Processo!”. Entretanto, achou que era preciso colocar também algo dizendo sobre o que aquilo se tratava.

Resolveu escrever o nome do livro. Porém descobriu que o nome Macacos do Paraíso: a Biografiaera grande demais e não cabia embaixo da inscrição.

Abreviou o nome do arquivo para M.P.B., apagou a luz e foi embora."



ROB GORDON
Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.



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quinta-feira, 24 de outubro de 2013


Não fale com ela



a insônia decifrada por uma vítima experiente


"Após muitas pesquisas científicas pode se afirmar: os vampiros estão extintos. O que sobrou deles, depois de milênios de convivência, são apenas fiapos ralos de DNA contaminado, desigualmente distribuídos, entre a população normal. A sede de sangue praticamente não se manifesta, mas o chamado da noite se revela em muitos. Esses semi amaldiçoados, entre os quais me incluo, são os insones. Por sorte já não causamos dano senão a nós mesmos.

Queres mesmo ajudar um insone? Vá dormir e deixe-nos com nossa solidão. Se alguém precisa de uma mão amiga para segurar, não se trata de insônia, nesse caso já foi ultrapassada a fronteira do território do pânico. A insônia é um pânico júnior, modalidade menor, peso pena das ansiedades, mas nem por isso menos daninha. O insone experiente sabe que a boa vontade alheia de nada adianta, e a boa alma será mais um zumbi no dia seguinte. Ciente da impotência, resigna-se e dispensa acompanhantes.

O problema maior são as primeiras manifestações, quando ainda não dominamos os mecanismos da herança funesta, e acreditamos que a insônia nos sussura segredos benéficos. O neófito imagina viver uma hiperlucidez, finalmente teria entendido seus problemas. Que nada, a insônia é um estado terceiro, nem acordado nem desperto, mas guarda um pouco dos dois: a lógica aguçada da vigília, e o exagero alucinado dos sonhos temperado com angústia dos pesadelos. Toda experiência com ela nos parece maior, desesperada, grandiloqüente. Mas tão logo a madrugada desponta, os fantasmas se dissipam.

Claro que é necessário pensar sobre o que nos ocorre quando estamos insones, mas nunca enquanto acontece. Devemos trata-la como o mofo, examiná-la sob a luz bactericida do sol.

Por sua natureza híbrida é impossível fazer algo útil, para tanto seria preciso estar desperto. Na essência, a insônia é desperdício: impossível fazer qualquer coisa, impossível descansar. Ela é totalitarista, quer que tenhamos olhos só para ela, não nos partilha. Para melhor nos possuir, sádica que é, ela quer que pensemos nela quando não temos cérebro para tanto, o que nos arrasta para um descaminho de tormentos.

A forma de combate-la é o descrédito. É saber que nada do que pensamos enquanto ela dança conosco tem o tamanho que vemos. Não estamos diante de verdades e revelações. Se não caímos na armadilha de filosofar sobre a vida nesse estado alterado e enfraquecido de consciência seus poderes diminuem. Em resumo: não faça DR com a insônia.

Um última dica, embora saiba que é indelicado negar qualquer coisa a uma dama: ela pedirá álcool, cigarros e café, e vai insistir. Seja firme, negue categoricamente. Se você resistir, ela irá embora antes para saciar seu vício em outra freguesia."



Mário Corso

Mário Corso é psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formado em psicologia pela UFRGS, trabalha com adolescentes e adultos. Em 2002 lançou Monstruário – Inventário de Entidades Imaginárias e de Mitos Brasileiros pela editora Tomo, Menção Honrosa do prêmio Jabuti, numa tentativa de revitalizar figuras esquecidas do folclore nacional. Publicou o livro Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010, ambos pela Ed. Artmed, escritos em parceria com sua esposa Diana Corso. Publica artigos, ensaios e crônicas em diversos meios de comunicação.






Não reservemos a Vida para amanhã. A Vida é curta, efêmera, delicada e fugaz. É bonita, intensa e generosa. As sombras, ensinam, mas são as luzes que carregam, em si, a célula da felicidade. O lugar mais bonito é onde nosso coração bate, descompassado. Ou ali, na dobra da esquina, ou além do horizonte.
Não reservemos a Vida!