Que horas são?

terça-feira, 2 de julho de 2013

SONETO 76

(domingo, no parque)


Soneto 76

"Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia
Tão incapaz de produzir inventos 
Que cada verso quase denuncia 
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas. 
E assim vou refazendo o que foi feito, 
Reinventando as palavras do poema.
Como o sol, novo e velho a cada dia,
O meu amor rediz o que dizia."


Sonnet 76

Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods, and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know sweet love I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.






SHAKESPEARE, William. "Sonnet 76". In: CARNEIRO, Geraldo (trad. e org.). O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.


(Encontrei no blog do Antônio Cícero)



segunda-feira, 1 de julho de 2013

cor e luz de inverno, em Porto Alegre





"No inverno te proteger

no verão sair pra pescar

no outono te conhecer

primavera poder gostar

e no estio me derreter

pra na chuva dançar e andar junt
o!"




Beto Guedes






INSÔNIA



Meia noite e meia

Uma pedra range

Uma porta late

Um cachorro longe

O motor de um carro

No portão de casa

Bate o vento passa

Na janela inteira




Meia lua cheia

Na montanha imóvel

Que me olha imensa

Fora do que penso

No meio da sala

Meu sapato encalha

Nos pés da cadeira

Um som que não pára




No silêncio claro

Do vidro uma abelha

Zumbe em minha telha

Chove minha cara

Velha agora espelha

Na poça uma estrela

Treme e atravessa

O avesso da véspera

Desamanhece

E eu desadormeço



(Arnaldo Antunes/Zé Renato)















"Amor é coragens. E é sede depois de se ter bem bebido"



(João Guimarães Rosa - In Dão Lalalão; Noites do Sertão)













SEGREDOS  DE  AMOR


“A minha mulher adoeceu. Estava constantemente nervosa por causa dos seus problemas no trabalho, vida pessoal e das suas falhas e problemas com os nossos filhos. Perdeu cerca de 13 quilos e pesava pouco mais de 40 quilos aos 35 anos. Ficou demasiado magra e chorava constantemente. Não era uma mulher feliz. Tinha dores de cabeça constantes, dores no peito e tensão muscular nas costas. Não dormia bem, adormecia somente de madrugada e cansava-se muito durante o dia. A nossa relação estava à beira da ruptura. A sua beleza começava a abandoná-la. Tinha papos debaixo dos olhos, andava sempre desgrenhada e parou completamente de cuidar de si. Recusava trabalhar no cinema e rejeitou vários papéis. Perdi a esperança e pensava que nos divorciaríamos em breve… Foi então que decidi tomar algumas medidas. Afinal, eu tenho a mulher mais bonita do mundo. Ela é a mulher ideal para metade dos homens e mulheres do planeta e eu era o único a ter o privilégio de adormecer ao seu lado e de poder abraçá-la. Comecei a mimá-la com flores, beijos e muitos elogios. Surpreendia-a e tentava agradá-la em todos os momentos. Enchi-a de presentes e comecei a viver apenas para ela. Só falava em público a seu respeito e relacionava todos os assuntos com ela, de alguma forma. Elogiei-a a sós e em frente a todos os nossos amigos. Podem não acreditar, mas ela começou a renascer, a florescer… Tornou-se ainda melhor do que era antes. Ganhou peso, deixou de andar nervosa e ama-me ainda mais do que antes. Eu nem sabia que ela podia amar tão intensamente. E então percebi: ‘A mulher é o reflexo do seu homem’”.




Texto de Brad Pitt publicado na revista americana “Identity Magazine”, sob o título “Um Segredo de Amor”.



 (O texto é uma declaração de amor, acredito que a frase "A mulher é o reflexo do seu homem", seja um alerta para o comportamento masculino.)


segunda-feira, 24 de junho de 2013


E a Ana Lúcia, minha amiga e  confidente, me levou  para o blog dela, o ROCCANA. Por que nossas conversas são sempre recheadas de uma vã filosofia e rendem teses, lágrimas, risos e (in)conclusões.


"Uma história sempre tem duas verdades.
 E uma verdade acima das duas."


   (Ana Maria, da série "filosofia de MSN".)



Link para o ROCCANA


                                   
Só o Amor movimenta e transforma. Tudo começa quando o amor se instala em nós. 



                                      






sexta-feira, 21 de junho de 2013

(Lídia Jorge em Porto Alegre, no Instituto Estadual do Livro, maio de 2013)








Lídia Jorge



QUEM GUARDARÁ OS LIVROS



[06-05-2013]



"Dá que pensar que um dos temas mais abrangentes e comuns a todas as Literaturas Contemporâneas, hoje em dia, seja o próprio livro em si mesmo, promovido a personagem e móbil de infinitas ações ficcionais.


Refiro-me ao livro enquanto pequena escultura feita de folhas escritas, unidas umas às outras por um dos seus lados, colocado no colo de alguém, em diálogo com o seu leitor e o seu autor, face ao seu destino como entidade, sujeito e objeto de um mundo de sonho. Em torno deste tema a variedade é infinita. Há livros sobre o livro que alinham com a forma solene inventada por Borges, metáfora antecipada do que viria a ser o livro infinito digital, outros aproximam-se da biblioteca inventada por Umberto Eco onde todas as aventuras do saber são possíveis. E há formas menos densas como seja a fábula ternurenta e cómica inventada pelo americano Sam Savage, com Firmin, a ratazana que ao comer os livros ia incorporando o que deles havia de humano. Ou a memória da perseguição durante a Guerra Civil de Espanha, recriada pelo galego Manuel Rivas em Os Libros Arden Mal. Ou o livro encarado como objeto de chegada de todos os sonhos de uma família portuguesa emigrante, escrita por José Luís Peixoto num livro cujo título é, precisamente, O Livro. O tema é global e o inventário impossível. Mas dessa impossibilidade talvez se deva deduzir que existe uma contradição aberta na cultura de hoje – Que estamos conscientes de que o livro literário representa uma forma de humanização que continua a agir sobre o nosso imaginário como espaço de refúgio e salvação, e que o medo de perdermos essa entidade sem haver nada no horizonte que a substitua assume uma expressão demasiado forte para não ser ela própria ficcionada.


Curioso, porém, é que de entre os livros que colocam os livros como sujeitos de ação, ou os transformam em elementos fabulosos de intrigas onde se tornam indispensáveis, o livro de Ray Bradbury, 451 Fahrnheit , publicado em 1953, faz agora precisamente sessenta anos, continua a emitir-nos alguns dos mais claros sinais de aviso e mais promissores sinais de esperança. O bombeiro Montag, incarnação da figura do queimador, que acaba por se transformar num dos clandestinos que amam os livros a ponto de os memorizarem e de se batizarem com os seus próprios títulos, deixar-se-á ele mesmo contaminar pelo desejo de os decorar. Tornou-se clássica no mundo a história desse queimador queimado de amor pelos livros. Talvez por isso, sempre que em alguma das sociedades de hoje, mesmo nas mais sofisticadas, aparecem fanáticos agitando listas negras de títulos, a metáfora de 451 Fahrenheit impede o avanço. Aliás, quando nos anos setenta se começou a temer que o audiovisual eliminasse os livros, sobretudo os literários, aqueles que expressam o fundo mais denso das línguas, invocou-se o livro de Ray Bradbury. Não aconteceu. Mas voltou a pensar-se nele com dramatismo, nos anos noventa, quando se temeu que o mundo digital engolisse para sempre a capacidade de leitura de longas páginas em detrimento dos pequenos fragmentos, e voltamos a retomá-lo como aviso, agora, quando pensamos que a “nuvem”, que a net proporciona, em breve poderá misturar livros, páginas, cruzar e tornar anónimo o que tem nome, apócrifo o que é verdadeiro, plagiar o que é único, destruir o elo que consideramos sagrado entre a obra e o seu autor. E perguntamo-nos se há possibilidade de a Literatura se salvar a si mesma. Há. Porque o mundo está cheio de Montags, que acabam por fazer da sua própria cabeça um depósito de saber."


Lídia Jorge



Jerusalém, 10 de Fevereiro, 2013