Que horas são?

domingo, 12 de maio de 2013



Minha mãe...







"Mãe, peixe sim, peixe fui em teu aquário  
Pássaro implume em teu ninho. 
Cordeiro em teu estábulo
Ah, esse aroma de Favos de teu colo, 
incenso em minha infância... 
A Grande Fada transforma em riso o grito 
descoberta do mundo

Mãe é flor na sala, 
lençóis limpos e mesa pronta. 
A Mãe batiza os objetos. 
A jarra de água fresca, as toalhas, o termômetro.

A Mãe espera até que a aurora 
entregue o pão e o leite no portal.

Eis a Mãe, com seus presságios e sobremesas... 
Eis o Filho, guardião de uma esperança de amor 
protegida à sete chaves 
lá, onde residem as mais cálidas lembranças 
e os mais ásperos segredos..."




(Luiz Coronel)





sábado, 11 de maio de 2013





Nos meus avessos, nos meus rascunhos, nas minhas gavetas, sempre encontro um sentimento e um nome.  Gosto de saber que está lá. Pego, lustro, reembalo em papel de seda, branco, para não macular sua beleza e amarro com fitas de cetim lilás. Um ramo de lavanda para perfumar e um coração feito de pérolas para arrematar. Guardar o amor em um lugar especial, com reverência e respeito é cuidar para que a Vida não se perca em emboscadas e atalhos.


                     
Em dias de comemorações datadas, música para falar das mães.



                     


                          






sexta-feira, 10 de maio de 2013

   BEIJO


                     
                                   (imagem: by Rafi Raz)




"O beijo é uma estrofe que duas bocas rimam."




                                              Coelho Neto




                            "Entre Belo Horizonte e o aeroporto de Confins."
                                                     Foto: Ricardo Noblat




             Um caminho para (re)viver.





               
   

                                   






                                                     Fases da lua






LUA ADVERSA 



"Tenho fases, como a lua 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases como a lua...) 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu..."


Cecília Meireles



quinta-feira, 9 de maio de 2013

                  Rufus Wainwright





















                                         



No Teatro Bourbon Country, em Porto Alegre, dia 10 de maio, às 21 horas.



domingo, 5 de maio de 2013


Notas sobre "A banda"
Por Carlos Drummond de Andrade

 

  



"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.




A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.






Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.


                   
   


Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente."


Carlos Drummond de Andrade,
Correio da Manhã,14/10/66





Imagens a partir do vídeo/documentário