Que horas são?

domingo, 5 de maio de 2013


Notas sobre "A banda"
Por Carlos Drummond de Andrade

 

  



"O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.




A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.






Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.


                   
   


Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente."


Carlos Drummond de Andrade,
Correio da Manhã,14/10/66





Imagens a partir do vídeo/documentário








"A minha sombra sou eu,

ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!"




[Almada Negreiros "A sombra sou eu"]


QUEM ME LEVA OS MEUS FANTASMAS?

                 


                                       
                                             











"Aquele era o tempo em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos
Marinheiros perdidos em portos distantes
Em bares escondidos em sonhos gigantes
E a cidade vazia da cor do asfalto
E alguém me pedia que cantasse mais alto

Quem me leva os meus fantasmas
Quem me salva desta espada
Quem me diz onde é a estrada
Quem me leva os meus fantasmas
Quem me leva os meus fantasmas
Quem me salva desta espada
E me diz onde é a estrada

Aquele era o tempo em que as sombras se abriam
Em que homens negavam o que outros erguiam
Eu bebia da vida em goles pequenos
Tropeçava no riso abraçava venenos
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala nem a falha no muro
E alguém me gritava com voz de profeta
Que o caminho se faz entre o alvo e a seta

(refrão)

De que serve ter o mapa se o fim está traçado
De que serve a terra à vista se o barco está parado
De que serve ter a chave se a porta está aberta
De que servem as palavras se a casa está deserta."


PEDRO ABRUNHOSA
















sábado, 4 de maio de 2013

Artista plástica: Fátima Annes 






   Exposição e venda na loja Maria Teresa Objetos Decorativos e Espaço de Arte









"Cada um é São Jorge,cada um é Dragão."


"(...)A pessoa que não renega o dragão, mas o mantem sob seu domínio consegue uma síntese feliz dos opostos presentes em sua vida. Deixa de se sentir dividido; encontrou a justa medida pois alcançou a harmonização do eu e de sua identidade luminosa com o dragão sombrio, o equilíbrio dinâmico do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra, da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e da arte com a religião. Esta pessoa emerge como um ser humano mais rico, mais sereno, mais compreensivo, tolerante e compassivo, irradiando uma aura boa ao seu redor.(...)"



[Leonardo Boff, teólogo, filósofo, pesquisador e escritor.]
 
        

 
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Maria Teresa Objetos Decorativos e Espaço de Arte

Rua Tobias da Silva, 174   Bairro Moinhos de Vento   Porto Alegre - RS

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"Me diz que eu sou seu tipo
Me diz, neném, que eu acredito
Murmura baixinho que eu sou ideal
Coloca aquele vestido, tipo comprido
Vê se não brinca com a minha libido
Me beija no ouvido
Nada faz sentido
Tudo arde
Me diz que eu sou seu tipo
Repete amor que eu acredito


Preciso de guarida
Minha amiga, de salvação
A barra tá pesada
Não quero nada
Só uma confirmação
Que brilhe em seus olhos
Seu peito não pare de arfar
Na minha chegada
Sua boca comece a gritar
Gritar que eu sou tipo, só isso
somado, há muita emoção
Vai fazer rolar de prazer
Meu coração


Preciso de guarida
Minha amiga, de salvação
A barra anda pesada
Não quero nada
Só uma confirmação
Que brilhe em seus olhos
Seu peito não pare de arfar
Na minha chegada
Sua boca comece a gritar
Gritar que eu sou tipo, só isso
Sou mago, há muita emoção
Vai fazer rolar de prazer
Meu coração


Vai fazer rolar de prazer
Meu coração."



Composição:  Eduardo Dusek / Luís Carlos Góes









          Ney Matogrosso







                                 Eduardo Dussek







[Imagens feitas a partir do vídeo do YouTube]




MARIA BETHÂNIA


                                     



























sexta-feira, 3 de maio de 2013


FELIPE STEFANI é artista plástico, escritor. Faz poesia porque é dela que alimenta a sua alma e desenha para fazer poesia.






"(...)Sou do tamanho da minha janela
e nela cabe até o mar.(...)




















                     O blog do Felipe Stefani




quinta-feira, 2 de maio de 2013


                         MANHÃ  AZUL










                 


                            


"Manhã,
Manhã de azul
Manhã de céu
Manhã de só
Manhã de quem sou eu

Manhã de pó
Manhã de fome
Manhã meu nome
Manhã de solidão

Eu abri meu salão
Pr'essas folhas secas do chão
E deixei todo o vento entrar
Saía do meu pulmão

Quem foi que botou a chuva dentro dos meus olhos?
Qual foi a luz da luz do Sol
Que secou e me fez ver?
Quem foi que soprou que soprou é o nome do amor
Faz a Terra tremer

Quem foi que botou a chuva dentro dos meus olhos?
Qual foi a luz da luz do Sol
Que secou e me fez ver
Quem foi que soprou que soprou é nome do amor
Faz a Terra tremer

Olha lá
A cidade vai caindo sem pé
É, o que eu sabia ruiu
Iluminado pela luz de alegria azul

Ninguém viu,
Só eu.
E o que eu sabia
Morreu
E o que eu sabia
Morreu"

                           [Mariana Aydar]