Que horas são?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



"Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma virgem esquecida?
Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgastes diante de um avião
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha!"


[Adalgisa Nery]


                                                               (eternos em nós...)




CÂNTICO II



                        [Cecília Meireles]





"Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens... 

não queiras ser o de amnhã. 
Faze-te sem limites no tempo. 
Vê a tua vida em todas as origens. 
Em todas as existências. 
Em todas as mortes. 
E sabes que serás assim para sempre. 
Não queiras marcar a tua passagem. 
Ela prossegue: 
É a passagem que se continua. 
É a tua eternidade. 
És tu."





terça-feira, 22 de janeiro de 2013







"Se depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tenho só duas datas: a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra, todos os dias são meus."



(Fernando Pessoa)








Alice Ruiz é poeta que escreve como quem sabe tudo da alma. E sabe pontuar nossas inquietações, elevar o feminino. Faz o parto das nossas dores e celebra o amor em palavras que só ela conhece.
Leio seus livros com fome de poesia. Leio, releio, marco o texto, anoto as batidas do meu coração, admiro as palavras no lugar certo e o cuidado com que ela escreve.
Hoje é seu aniversário. Para celebrar, nada melhor do que conhecer um pouco mais sobre ela. Alice por Alice.

[Alice Ruiz entrevistada por Mario Silva, em Olinda, na última edição da FliPorto.]




Entrevista com Alice Ruiz



Segunda parte da entrevista com Alice Ruiz





Terceira parte da entrevista com Alice Ruiz




Parte Quatro...




Parte Cinco...




Parte Final...








Aniversário da Alice Ruiz

                                        (das pétalas e do tempo...)




"devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido"


Alice Ruiz



domingo, 20 de janeiro de 2013



Leia com o coração. Uma lição de amor e de paternidade...

       


                 
TELEVISÃO  DE  BEIJO





[Fabrício Carpinejar]



"Meu amigo Renato Godá tem um filho autista. 

É o Tom, 2 anos. Ele não é diferente de niguém. É como deveríamos ser: vulneráveis.

Tom não mente, não engana, não se protege como a gente. 

Um menino inteligente ao extremo. 

Sua inteligência é sensibilidade. Não descansa um minuto de sentir. De piscar comparações. De fazer operações matemáticas e musicais.

Uma pomba na janela é um terremoto. Um tombo na bicicleta é um colisão de estrelas. Mexer os cabelos é um aplauso.

Não há suavidade disponível para sua absorção. O conhecimento é feito por descobertas chocantes que exigem a mobilização do corpo inteiro.

É como se toda a lembrança fosse sublinhada. É como se toda a observação fosse inesquecível. 

Tom me encara de lado, seu ouvido é que me olha. 

Ele busca não interromper o ritmo das coisas. Os objetos têm sangue. Os objetos têm porta-retratos. Os objetos têm rosto. 

Imagine se você realizasse tarefas escutando seu batimento cardíaco? Este é o autista. om o ouvido de dentro e o ouvido de fora, simultâneos. A porta da sala bate na sala e no coração. O vento assobia na janela e no coração. 

Eu amo muito o Tom porque nunca vi um pai como Godá. 

Godá é aparentemente desajeitado, boêmio, bagunçado. 

Mas se dedica ao filho com uma delicadeza disciplinada que somente existe no interior dos animais selvagens. 

Sua paciência é um presépio inesperado no deserto. 

Ele explica três, quatro vezes, sem nunca alterar a doçura do timbre.

Sem jamais apresentar irritação pela repetição. 

Ainda que esteja compondo ou ocupado com a vida adulta, para a respiração e se põe a conversar. Usa as mãos com gestos lentos de giz. 

Toda resposta é nova mesmo que seja antiga. 

A atenção pede a mirada firme e cúmplice, com duas colheres de açúcar.

Tom pega o arroz com os dedos. Godá se aproxima e mostra que o garfo é mais divertido do que a mão. 

Tom volta a comer com a mão. Godá insiste que o garfo é uma extensão de boneco. Uma luva de robô. 

Tom entende por cinco minutos, e Godá rearticula a fábula acrescentando um detalhe a mais de ternura.

Naquela casa, a noite é tarde demais, a biblioteca é longe demais. As histórias estão pousando a qualquer instante. 

Tom beija a televisão. Godá diz que a televisão muito perto machuca os olhos. Tom beija de novo a televisão. Godá pede beijo no lugar da televisão. 

O pai é um televisor que não prejudica a boca. 

Tom ri alto. E beija o pai. Para depois voltar a beijar a televisão."






Postado na página do Fabrício Carpinejar , no Facebook...













Das possibilidades de ser feliz, fotografar ocupa um lugar especial na minha vida. Fotografo por que vejo. Fotografo por que sinto. Demorar o olhar é descobrir ângulos diferentes nas esquinas, cores nas dobras cinzentas dos dias. É dar significado ao insignificante, ao rotineiro, àquilo que pensávamos conhecer bem. Fotografar não pede mais do que alguns segundos e olhos atentos ao caminho. Talvez seja isto o que me faz tão bem: focar no caminho e (re)fazê-lo em descobertas. 






"captura
do instante apenas
o que seja

mel

e louva
átimos de doçuras
sempre

tão breves"


                    [Nydia Bonetti]




sábado, 19 de janeiro de 2013

                                   
                                           
                                           (jardim da AMOR & FLOR, cafeteria e floricultura)






“Me gusta imaginar que el mundo es una gran máquina. Ya sabes, nunca las máquinas tienen partes que sobran. Las maquinas tienen el número exacto de piezas que necesitan. Así que me imagino que si el mundo es una gran máquina, tengo que estar aquí por alguna razón."



Hugo Cabret