Que horas são?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

                                       (fotografando o ocaso da folha...)


"Ela sempre enfurecia-se sozinha, irritava-se sozinha, suportava sozinha suas intensas convulsões emocionais, das quais ele nunca participava."


Anaïs Nin








"(...) O susto da alma só surge quando o olhar, que estava cego, passa a enxergar além do que devia. O susto é a surpresa do olhar quando atinge o coração desguarnecido do ser."



(Alice, personagem do livro "O Nó Górdio"de  Carlos Eduardo Leal - pág.131)




Meu amigo Carlos Eduardo Leal é psicanalista, escritor e artista plástico e sabe muito das palavras e da alma humana.
Autor de "Fragmenta" e "A sede da mulher - (poesia).

Romances: "O nó górdio" e "A última palavra".





domingo, 13 de janeiro de 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

                                    (aprendendo a reconhecer os sinais da Vida...)



"Há coisas que ocorrem em nossa vida,que são o próprio ponto final travestido de ato. Só nos resta reconhecer."


                      [Helena Britto Pereira]




E eu que coleciono lápis, caixinhas, latinhas e bonecas, só uso as roupas que gosto, colho flores dos jardins alheios (e elas crescem, lindamente em meu jardim), como pão no caminho de volta da padaria, choro em qualquer lugar e rio das coisas mais ridículas.   Eu estou começando a envelhecer. Ainda bem!! Difícil é quando negamos a passagem do Tempo     e vivemos fugindo dos espelhos. Fuja, não!! Compre um espelho lindo para ver o Tempo. Ele é você em movimento.



"Quando eu for velha, vou me vestir de roxo
Com um chapéu vermelho que não combina, e não me deixa bem.
Quero gastar minha aposentadoria em conhaque, luvas de seda e sandálias de cetim,
e dizer que não tenho o dinheiro da manteiga.
Vou sentar-me na calçada quando estiver cansada,
e comer todas as promoções dos supermercados,
Tocar as campainhas dos vizinhos, arrastar meu guarda-chuva nos gradis das ruas.
Para compensar a sobriedade da minha juventude.
Sairei de chinelos na chuva, colherei flores em jardins alheios, e aprenderei a cuspir no chão.
Vou usar roupas horríveis, engordar sem culpa, e comer três quilos de salsichas de uma só vez,
ou apenas pão e picles por uma semana
Vou colecionar caixinhas, lápis e rótulos de cerveja.
Mas por ora, devemos ter roupas que nos mantenham secas
Pagar nosso aluguel e não dizer palavrão pelas ruas,
e dar bom exemplo para as crianças.
Devemos ter amigos para jantar e ler os jornais.
Mas talvez eu devesse praticar um pouco agora?
Para que quem me conhece não fique muito chocado ou surpreso
Quando eu for velha e passar a usar roxo."



[Jenny Joseph]


                                                        (o valor de uma página em branco...)





PLANO



"Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro."


(Nuno Júdice)









ATENÇÃO AO SÁBADO




[Clarice Lispector]




"Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.



No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 

Domingo de manhã também é a rosa da semana. 

Não é propriamente rosa que eu quero dizer."




[Texto extraído do livro "Para não Esquecer", Editora Siciliano - São Paulo, 1992.]



sexta-feira, 11 de janeiro de 2013










A poesia de Fernando Couto...




DE SÚBITO



"De súbito,
a tristeza nasce no teu rosto,
suave, densa e silenciosa
– céu da África ainda sem noite nem dia

A lua,
tua irmã africana,
irrompeu dos teus ombros,
esplendorosa e suave.

E ao gesto diáfano das tuas mãos
incendiou-se a noite."



[Fernando Couto]








VERÃO  AFRICANO


"A plácida cor deste hálito envolvente,
a tangível paz de calor e da savana,
o céu enfeitiçado de azul sem mácula,
a modorra só quebrada pelo canto
e o mar - um velho cão adormecido."



[Fernando Couto]