Que horas são?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012






O AMOR



"Deus — talvez esteja aqui, neste

pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,

de ti, em mim ficou. Está nos teus

lábios, na tua voz, nos teus olhos

,e talvez ande por entre os teus cabelos,

ou nesses fios abstractos que desfolho,

com os dedos da memória, quando os

evoco.



Existe: é o que sei quando

me lembro de ti. Uma relação pode durar

o que se quiser; será, no entanto, essa

impressão divina que faz a sua permanência? Ou

impõe-se devagar, como as coisas a que o

tempo nos habitua, sem se dar por isso, com

a pressão subtil da vida?



Um deus não precisa do tempo para

existir: nós, sim. E o tempo corre por entre

estas ausências, mete-se no próprio

instante em que estamos juntos, foge

por entre as palavras que trocamos, eu

e tu, para que um e outro as levemos

connosco, e com elas o que somos,

a ânsia efémera dos corpos, o

mais fundo desejo das almas.



Aqui, um deus não vive sozinho,

quando o amor nos junta. Desce dos confins

da eternidade, abandona o mais remoto dos

infinitos, e senta-se aos pés da cama, como

um cão, ouvindo a música da noite. Um

deus só existe enquanto o dia não chega; por

isso adiamos a madrugada, para que não

nos abandone, como se um deus

não pudesse existir para lá do amor, ou

o amor não se pudesse fazer sem um deus."



in 'Cartografia de Emoções' (2001)
Edições D. Quixote






LÍLIA TAVARES   (a publicar)


A CARLOS CAMPOS



"É por ti que se enchem os rios
de carpas azuis,
de águas que querem saltar
pela minha janela.
Como é belo este silêncio ilimitado
quando nas copas redondas das árvores
o teu nome me chama.
Pedi-te que apagasses a lua
e que nos campos tacteando te encontrasse.
Sei-te na aurora, por isso não temo
e agora a lanterna dos dias pode
por fim ficar em ventos de abraços.
Voam aves dentro dos teus sonhos
como memórias de pétalas acordadas.
Ficas ancorado dentro do meu tempo.
Não há saudade nem solidão
que se não derrube."



domingo, 2 de dezembro de 2012


                   (Sobreposição...)





"Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca, corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.
Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber.
Pra caber mais, derramo por nada, derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei (...)
Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso."


Viviane Mosé





sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A VOZ  impecável do Daniel Boaventura.   Confesso que fui seduzida  pelo seu estilo clássico e a elegância com que  se movimenta no palco. Já conhecia o seu primeiro trabalho em cd, mas ele amadureceu como cantor, talvez influencie o fato de  ser um ator completo que faz teatro e televisão há muito tempo. É é lindo! Um príncipe que canta e encanta.
Aqui, compartilho um pouco das suas músicas . Encantem!






























quinta-feira, 29 de novembro de 2012

É DE MANHÃ...




"Estou melancólica. É de manhã. Mas conheço o segredo das manhãs puras. E descanso na melancolia. Sei da história de uma rosa. Parece-te estranho falar em rosa quando estou me ocupando com bichos? Mas ela agiu de um modo tal que lembra os mistérios animais. De dois em dois dias eu comprava uma rosa e colocava-a na água dentro da jarra feita especialmente para abrigar o longo talo de uma só flor. De dois em dois dias a rosa murchava e eu a trocava por outra. Até que houve determinada rosa. Cor-de-rosa sem corante ou enxerto porém do mais vivo rosa pela natureza mesmo. Sua beleza alargava o coração em amplidões.

Oh, como tudo é incerto. E no entanto dentro da Ordem. Não sei sequer o que vou te escrever na frase seguinte. A verdade última a gente nunca diz. Quem sabe da verdade que venha então. E fale. Ouviremos contritos.

.. eu o vi de repente e era um homem tão extraordinariamente bonito e viril que eu senti uma alegria de criação. Não é que eu o quisesse para mim assim como não quero o menino que vi com cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Eu queria somente olhar. O homem olhou um instante para mim e sorriu calmo: ele sabia o quanto era belo e sei que sabia que eu não o queria para mim. Sorriu porque não sentiu ameaça alguma. É que os seres excepcionais em qualquer sentido estão sujeitos a mais perigos que o comum das pessoas. Atravessei a rua e tomei um táxi. A brisa arrepiava-me os cabelos da nuca. E eu estava tão feliz que me encolhi no canto do táxi de medo porque a felicidade dói. E isto tudo causado pela visão do homem bonito. Eu continuava a não querê-lo para mim - gosto é das pessoas um pouco feias e ao mesmo tempo harmoniosas, mas ele de certa forma dera-me muito com o sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. Tudo isso eu não entendia.
A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
Calo-me.
Porque não sei qual é o meu segredo. Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós. Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo.
E não tem fórmulas.
Penso que agora terei que pedir licença para morrer um pouco. Com licença - sim? Não demoro. Obrigada."



Clarice Lispector  no livro "ÁGUA VIVA"






quarta-feira, 28 de novembro de 2012







Na FNAC, ontem à noite, pocket show com o cantor Vander Lee,  um mineiro típico de fala mansa, bem-humorado e que  canta deliciosamente. Um show intimista que proporcionou ao público fazer perguntas de forma mais informal e próxima.
Conheci o Vander Lee em Minas, quando ganhei o seu cd anterior. Foi amor à primeira vista, à primeira música. A poesia presente em suas músicas é uma declaração de amor escrita com notas musicais.

O cd SAMBARROCO como sugere o nome é um trabalho voltado para o samba. Um trabalho autoral, com o signo da sua palavra. Das dez músicas, oito são composições suas e duas em parceria com outros  compositores.

Um programa agradável para uma terça-feira, na companhia do Thales, meu filho, que fez as fotos e aguardou, pacientemente, na fila de autógrafos.



                    







TERNO CINZA



Primavera chegou cedo
Não há nada em meu jardim
Madrugada anda calada
Nem andor passa por mim
O terno cinza do outono
Disse o tom ao coração
Tudo que me aquece agora
É só vazio e solidão
O tempo só passa lá fora
Eu fico no mesmo lugar
Desde que você foi embora
Toda noite é sem luar
Já bebi toda a guanabara
E nada de você voltar
Com seu sorriso de iara
De brisa de velejar



               


ESTRELA


Trem do desejo
Penetrou na noite escura
Foi abrindo sem censura
O ventre da morena terra

O orvalho vale a flor
Que nasce desse prazer
Nesse lampejo de dor
Meu canto é só pra dizer
Que tudo isso é por ti

Eu vi
Virei estrela

Uma jangada à deriva
À céu aberto
Leva aos corações despertos
A sonhar com terras livres

Veio a manhã e eu parti
Mas quando cheguei aqui
Os astros podem contar
No dia em que me perdi
Foi que aprendi a brilhar

Eu vi
Virei estrela



Mas, preciso confessar: das músicas dele, FAROL é a minha preferida.




Tão doce, tão delicada! Romântica e simples como deve ser toda a declaração de amor.



sábado, 24 de novembro de 2012



Quantas cenas como estas seriam necessárias para tornar a Vida mais leve?  Quantas vezes nos permitimos a leveza, o riso, o beijo roubado, a dança na chuva, rir das situações, do ridículo da vida? Ah, o ridículo! Como é bom sê-lo, às vezes!
Quantas vezes valorizamos mais as dores e os sofrimentos e não celebramos os pequenos momentos felizes?  Aprendi que a vida se dá no miúdo das horas, nas felicidadezinhas diárias. Nada grande, nada poderoso demais, apenas o simples, o hoje, o agora, por este caminho, dizem a felicidade sempre passa. 



EU, APRENDIZ...

                                                     



Das boas lições que a Vida nos dá, generosamente, a maior delas é a humildade para aprender todos os dias, em todas as situações. Apre(e)nda!







Lição de casa


"Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,

atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta."





FLORA FIGUEIREDO    (minha poeta querida!)