Que horas são?

sexta-feira, 16 de novembro de 2012





Lembro-me bem do seu olhar





"Lembro-me bem do seu olhar.

Ele atravessa ainda a minha alma,

Como um risco de fogo na noite.

Lembro-me bem do seu olhar. O resto...

Sim o resto parece-se apenas com a vida.




Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.

Olhei para as montras despreocupadamente

E não encontrei amigos com quem falar.

De repente vi que estava triste, mortalmente triste,

Tão triste que me pareceu que me seria impossível

Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,

Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.



Fumo, sonho, recostado na poltrona. Dói-me viver como uma posição incómoda.

Deve haver ilhas lá para o sul das coisas

Onde sofrer seja uma coisa mais suave,

Onde viver custe menos ao pensamento,

E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol

E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais

Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.



Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,

Um coração exageradamente espontâneo,

Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,

Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,

Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove."



Fernando Pessoa


Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 152.





quinta-feira, 15 de novembro de 2012






Entre um pensamento e outro cabe um rio de saudade. 
Duas margens, muitas águas e uma sinuosa linha de afeto.
Palavras: pedras do rio moldadas pela passagem da água-pensamento.
Coração: nascente de todos os afetos.
Margem 1: o abraço do outro.
Margem 2: as mãos que te procuram.
Amor: águas que deságuam no (a)mar.
Entre o teu pensamento e o meu cabe o amor.

(pensamentos que insistem em virar palavras...)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Celebração em palavras...






Encontro é uma palavra que abraça.
Mão é uma palavra que pousa.
Vontade é uma palavra que move.
Beijo é uma palavra que promete.
Café é uma palavra álibi.
Memória é uma palavra sentido.
Fantasia é uma palavra que desperta.
Beijo, às vezes, é uma palavra roubada.


(exercitando palavras e lustrando memórias...)



                                                                     (O Tempo e eu...)



QUESTÃO




"Perguntei ao velho sábio do mar...
Como andavam as correntes do Tempo?

O velho senhor das marés incertas...disse-me:

- "Perdi a âncora do conhecimento..."






in - DA JANELA DO MEU (a)MAR - 2011 - José Luís Outono
Ed. Vieira da Silva —







                                  (vi uma figura feminina nesta árvore...)


Eis-me



"Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente."


Sophia de Mello Breyner Andresen



terça-feira, 13 de novembro de 2012

MIA COUTO

    Luiz Coronel, escritor e patrono da Feira do Livro/2012/POA e
    Mia Couto, escritor moçambicano.
      

Por que ouvir Mia Couto em um dia de domingo, fez paraíso dentro de mim.



“O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos dentro de nós.”


Mia Couto, in "O Pensamento Frequente",p.23



domingo, 11 de novembro de 2012

"e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar..."






TROVOA


"Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lembrando que um dia eu falei
"sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…"

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor"


Maurício Pereira

sábado, 10 de novembro de 2012

NA PRIMEIRA MANHÃ...





"Na primeira manhã que te perdi 
Acordei mais cansada que sozinha
Como um conde falando aos passarinhos 
Como uma bumba-meu-boi sem capitão 
E gemi como geme o arvoredo 
Como a brisa descendo das colinas 
Como quem perde o prumo e desatina 
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi 
Era tarde demais pra ser sozinha
Cruzei ruas, estradas e caminhos 
Como um carro correndo em contramão 
Pelo canto da boca num sussurro 
Fiz um canto demente, absurdo 
O lamento noturno dos viúvos 
Como um gato gemendo no porão 
Solidão."


Alceu Valença