Que horas são?

domingo, 14 de outubro de 2012

                                                            (reflexões)
             



O ENTERRADO VIVO



"É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência."


(ANDRADE, Carlos Drummond de. OBRAS COMPLETAS. Rio de Janeiro, Aguilar, 1967, p. 81)








Susana é minha amiga há mais de trinta anos. Crescemos juntas, na escola e na vida. Nos formamos juntas no magistério. Tivemos as melhores experiências da vida e nos apoiamos nas piores que ela nos reservou.

O tempo passou, seguimos, cada uma o seu caminho, mas a Vida (ela, de novo) nos reuniu novamente lá nos anos 90. Um dia descobrimos que éramos vizinhas e pudemos retomar a convivência diária. Compartilhamos alegrias, dores, lágrimas, segredos, confidências, almoço, jantar e colo. Neste período ela fazia residência médica na Santa Casa, aqui em Porto Alegre.
Fui à sua formatura, lá em Pelotas, vi a sua emoção, sabia da sua emoção, dos motivos de sua emoção. Eu sabia. Há uma cumplicidade de confidências entre nós que se tornou patrimônio afetivo. Mesmo de longe, sempre saberemos uma da outra. Há um código de vivências que ninguém nos rouba. Posso ir morar na Turquia e ela irá comigo, em afeto e amizade.

Pouco nos vemos, mas muito nos falamos, ainda que nossa amizade transcenda às distâncias. Construímos uma ponte invisível que nos mantém unidas.

Admiro cada passo que ela dá na vida. É uma mulher linda, (conquistou títulos de beleza, muitos!) uma médica bem sucedida,  empresária de sucesso, uma filha exemplar,  irmã amorosa e uma amiga ímpar. Tem a alma translúcida, um coração generoso e uma simplicidade que sempre me encantou.   Reconhece beleza no pé de alface que planta no seu sítio, no broto da flor que vê nascer  ou num pôr-de-sol em Punta del Este. Visita Paris, Espanha, Londres, Nova York com a mesma bagagem emocional que a leva de volta a Dom Pedrito, onde nascemos.
Requintados são seus talentos, entre eles, o piano. Toca lindamente as mais belas peças musicais. E, acima de tudo, é corajosa. Tem coragem de mudar quando tudo parece confortável, tem coragem de se desequilibrar quando o caminho se apresenta plano e repensar seus projetos se eles não apontarem a felicidade.

Susana é minha amiga. Que orgulho poder dizer isto! Orgulho do que nos tornamos, do que fizemos com as adversidades (e foram tantas!) que enfrentamos, do sucesso pessoal que conquistamos.


Susana teve perdas irreparáveis ao longo da vida. Alguns dos seus partiram mais cedo. Durante muito tempo seu coração ficou apertado em nós de marinheiro. Apanhou para a dor, mastigou a dor, foi a própria dor em alguns momentos. Então, cheia de amor e de vida  decidiu expulsar a dor e povoar o coração de esperanças e saudade amorosa.

Hoje, seus afetos que se foram, têm lugar especial no seu coração e na sua memória e, pelos fios invisíveis do amor, iluminam seu caminho, todos os dias. Superou a si mesma e (re)escreveu a própria história.

Comemoramos aniversário em datas próximas, ela no dia 11/10 e eu no dia 01/11 e nossa diferença de idade é de um ano. Nesta semana que passou pude cumprimentá-la mais uma vez, e meu coração se encheu de alegria, porque ela respondeu com uma linda declaração de amizade renovada.

Em  momentos como este,  eu penso: como não ser feliz?  Uma amizade como esta é uma benção infinita, um passaporte para a felicidade que vai além dos desejos triviais.




Escrevi pra ela, lá no Facebook:


"Daqui a pouquinho um novo ano começa na tua vida. Enche os dias de sol, flores, e amor. Celebra as conquistas, todas, e sonha loucamente. Trabalha com prazer e te entrega a cada vez que teu coração mandar. Ah, e renova nossa amizade por mais trinta anos, no mínimo! Então, "um pouco" mais velhas começamos tudo de novo.

Felicidades! Beijo"


Ela respondeu:




"Adorei, Ana Maria, obrigada pela amizade e pela presença constante em minha vida!!! Nossa amizade se renova automaticamente a cada 30 anos!!!! bjão"


E, no dia seguinte ela escreveu no meu mural do Facebook:




"Obrigada Ana, pela tua amizade de muitos anos e sempre igual, pela tua paciência em me escutar sempre que precisei, pelas boas e muitas risadas e aventuras que vivenciamos juntas, pelas maravilhosas recordações, pela terapia recente, pelos conselhos, muito obrigada por tudo! Sempre que tu ou tua família precisar quero que saibas que podes contar comigo! bjo"




Ela fez aniversário e eu ganhei o presente. Um carinho que não se mede!
Obrigada minha amiga por este vínculo tão forte que construímos.




sábado, 13 de outubro de 2012

A Fernanda Dutra é uma amiga muito querida, nos falamos no Facebook há alguns anos. É uma pessoa forte, inteligente, mãe, sabe do amor e da vida e uma mulher do Direito. Chico Buarque nos une, a maternidade é ponto comum e amizade é das melhores. Soube me ler ao enviar este poema de presente para o blog.

Obrigada, Fernanda!  Que Drummond seja uma ponte entre nós. Beijo!




“Eu, Etiqueta”


"Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou cartório,
Um nome.....estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nesta vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei (...)
(...) meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidência,
Costume, hábito, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar a minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim-mesmo.
Ser pensante, sentinte e solidário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio (...)
(...) Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscina,
E bem à vista exibo esta etiqueta (...)
(...) Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher? (...)
Hoje sou costurado, sou tecido,
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetivos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."


(Carlos Drummond de Andrade. Corpo, pág. 10 – Ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.)


No dia dezesseis deste mês o blog completa um ano. Um tempo de novas amizades, lindas surpresas e muitas alegrias. A partir de hoje vou postar os presentinhos de aniversário que recebo, pois o blog só existe porque meus amigos sempre estão por aqui.


Recebi da minha amiga Rosamaria Teixeira da Costa, blogueira, mãezona, avó açucarada e uma amiga presente e muito querida. 



                           (a flor e a cor que eu amo!)



"Querida amiga

É com satisfação que venho deixar meu depoimento pelo primeiro aniversário do AMORANINHA.

A internet consegue, além de aproximar amigos conhecidos, nos dar a grande satisfação de conhecer novos. 

Tu nos passa muita beleza nas poesias, nas músicas, na tua sensibilidade e bom gosto.

Que AMORANINHA continue sempre nos alegrando e nos deixando ainda mais amigas.

Bjim

Rosamaria Teixeira da Costa"


quarta-feira, 10 de outubro de 2012



DIA 289




"Vem a chuva, não vem a chuva, e o meu amor suporta este frio


que arrepia os seixos mas dá impulso aos tordos, às narcejas e

ao passo ansioso dos caçadores. Ninguém se lembra da ansieda-

de dos amantes, daqueles que trocam o mundo por um gesto e

se dispõem a libertar o corpo na mais dura das prisões: a paixão.



Vem a chuva, não vem a chuva, e o meu amor tem a profundida-

de das raízes da macieira, a cor e a doçura das maçãs, a plastici-

dade da nuvem, a paciência da água. Mas os amantes não vivem

numa casa branca cheia de toalhas brancas, cortinas brancas, ro-

sas brancas e brancas esperanças. O amor é rútilo e agita-se co-

mo um peixe que viajasse por dentro do corpo até atingir o cora-

ção, em festa, em êxtase, em antecipação aos céus negros e às

tempestades que podem desabar.



Vem a chuva, não vem a chuva, e o meu amor requer para si to-

do o tempo do mundo, todos os frutos da ternura que as mãos

podem colher na árvore do corpo. Sagrado é esse amor em que

o espírito se faz carne, em que a carne se faz chama e em que a

chama se faz vida. Sagrada é a beleza desse pássaro sensível, le-

ve e misterioso, que descansa no orgulho dos amantes.



Vem a chuva, não vem a chuva, e o meu amor empurra-me para

um círculo que é o centro do mundo, que é o centro da vida, pa-

ra que seja feliz nesse espaço e neste tempo, o tempo de saber

que nada tem um preço mais caro que o amor, mas que todos,

até os indigentes, o podem suportar.



Vem a chuva, não vem a chuva, e o meu amor será um cântico

mais a juntar aos cânticos entoados pelos mais felizes corações

do mundo."






JOAQUIM PESSOA in 'ANO COMUM'
(Introd. de Robert Simon; Posf. de Teresa Sá Couto)
Litexa Editora, 2011.







                                                    (nos jardins da PUC/RS)


Balada do Amor Através das Idades


"Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
matei, brigamos, morremos.


Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.


Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando eu ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.


Depois, (tempos mais amenos)
fui cortesão em Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina;


Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos."


Carlos Drummond de Andrade - Alguma Poesia - 1930


terça-feira, 9 de outubro de 2012






O Amor, meu amor




"Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar."




Mia Couto in "idades cidades divindades"

O AMOR  E  SEUS DESAMPAROS



(Pela primeira vez aqui no blog, faço uma postagem sem foto para ilustrar. Em sinal de respeito às pessoas desta história e à dor que escorre entre as linhas)




Encontrei uma amiga, meses atrás e ela me contava que estava se desapaixonando num relacionamento e que encontrara um homem que a conquistara, desde a primeira conversa.


Ela não falava, flutuava. Estava novamente apaixonada! Mas, agora, era quase um conto de fadas. Os dois eram só cuidados um com o outro. Embora morassem em estados diferentes, viviam grudados, como a ignorar a distância. Vez ou outra se encontravam e se amavam loucamente. Estavam felizes, satisfeitos, preenchidos com a presença do outro. Disse-me ela que nutria um certo medo de que o conto de fadas fosse apenas um conto e tudo acabasse. Ele, encantador e querido, sempre reafirmava seu amor por ela e tratava de dissuadi-la da ideia.


Ouvi a história, comovida. Em alguns momentos, me preocupei com ela, quando relatou episódios de ciúme desmedido da parte dele. 


Ele ainda estava inseguro porque ela havia sido honesta com ele e falara sobre o relacionamento anterior. Achou que ele confiava nela e que seu amor por ele era suficiente. Talvez não fosse.



Tempo depois, encontrei-a novamente e quase não a reconheci, tal era a tristeza que vi em seus olhos. E, antes que eu pudesse perguntar, ela sentou e chorou, como uma criança desamparada. Soube, então, que ele a deixara, em uma trilha de silêncios ensurdecedores. Ela não conseguia acreditar! Primeiro pensou que ele estivesse doente, muito doente, ou viajado para um lugar onde a tecnologia não o alcançasse, (fantasia infantil).



Os dias passaram com a lentidão que só os dias doloridos possuem. Ela insistia em fazer contato e nenhuma resposta recebia. Completado um mês de um silêncio sepulcral, a realidade começou a se impor: ele não voltaria. As lágrimas secaram, o corpo estava doente, o coração triturado. Quanto desencanto naquela mulher!

Na última vez que conversaram, numa sexta-feira, pela manhã, (ela guarda até o tom da voz dele naquele telefonema), ele não demonstrou nenhum indício de que a deixaria, ao contrário, reafirmou carinhosamente o seu amor por ela: "Você é meu amor, minha querida...Você é minha."  Ela não entendia, não entende ainda. Ela não o reconhece mais. Tentei argumentar dizendo que talvez ele precisasse de um tempo, e, que passado este período ele voltaria. Ela já não me ouvia, apenas falava e falava, e chorava, copiosamente chorava. Talvez eu não pudesse consolá-la, ela só queria as palavras dele. Qualquer palavra, qualquer movimento que o redimisse deste abandono.

Até onde sei, ele não mais falou com ela. Quis morrer pra ela, para a vida que planejaram. Teve medo do amor. Ou não havia amor. (ela não sabe mais organizar as ideias quando vai falar dele). Ela esperou todos os dias por ele. Esperou que o telefone tocasse, que chegaria um email, que ele viesse encontrá-la, (sim, ela olhava para os lados, a cada saída, na esperança de que ele estivesse ali). Esperou  como se sentasse à porta de casa vestida com as roupas da esperança, porque o amor é generoso e ela saberia perdoá-lo. Esperou com o coração aberto, com as mãos estendidas, esperou com fé...Mas ele não veio...

Ele a acusava, por vezes, de amar outro homem, (aquele com quem ela se relacionou antes dele, mas que se tornou um bom amigo, nada além). Enquanto ele se consumia achando que ela amava outro, ela dedicava todo o seu amor a ele. Os véus obscuros do ciúme talvez tenham roubado a vida amorosa que minha amiga oferecia pra ele.

Ela herdou dele momentos amorosos e felizes, e um desamparo que faz sangrar as feridas da alma e do coração.
Quis dizer a ela que desejo que  retome as rédeas da sua vida e seus olhos voltem a brilhar, não me atrevi. Só o tempo, este senhor implacável e sábio, saberá fazê-lo.