Que horas são?

domingo, 16 de setembro de 2012

C L A R I C E...


"É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre-arbítrio."


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.140.

sábado, 15 de setembro de 2012

                                (Belo Horizonte)




“Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros (...) quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e delicioso rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com um pão ou uma garrafa de leite.”


CORTÁZAR, Julio. As babas do diabo.___As armas secretas. Trad. Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p.72.



        (a manhã ficou melhor diante dela...)





"(...) É certo que a infelicidade não depende apenas da dor, mas a alegria, essa, só devia depender da ausência de dor física. Vinte séculos inteiros e completos não inventaram uma explicação do sofrimento; sofre-se em comparação com o que é não sofrer, e nenhum homem saudável quer ser educado previamente para aquilo que é mau. Já não se treina a resistência à dor: evita-se, sim, a mistura com essa 'coisa' repelente. (...)"


Gonçalo M. Tavares, in "A Máquina de Joseph Walser"


                                                       (o céu que eu vejo...)



ADOLESCENTE




"A juventude tem mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos,
A mim
Me expulsaram do quinto ano
E fui entupir os cárceres de Moscou.
Em nosso pequeno mundo caseiro
Brotam pelos divãs
Poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto,
Aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto
A tristeza do bosque de Boulogne?
Que valem comparados com isto
Suspiros ante a paisagem do mar?
Eu, pois,
Me enamorei da janelinha da cela 103
Da "oficina de pompas funebres".
Há gente que vê o sol todos os dias
E se enche de presunção.
"Não valem muito esses raiozinhos"
dizem.
Eu, então,
Por um raiozinho de sol amarelo
Dançando em minha parede
Teria dado todo o mundo."



Vladmir Maiakowski(1893-1930)

"AH! BRUTA FLOR DO QUERER..."


                             (delicadeza para salvar as horas...)








"Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim"


(Caetano Veloso)





Registrei a delicadeza das flores lá na Maria Objetos Decorativos
Rua Tobias da Siva, 174, Bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre.



sexta-feira, 14 de setembro de 2012


OLHA MARIA


Tom Jobim - Vinicius de Moraes - Chico Buarque/1971







"Olha Maria 
Eu bem te queria 
Fazer uma presa 
Da minha poesia 
Mas hoje, Maria 
Pra minha surpresa 
Pra minha tristeza 
Precisas partir

Parte Maria 
Que estás tão bonita 
Que estás tão aflita 
Pra me abandonar 
Sinto Maria 
Que estás de visita 
Teu corpo se agita 
Querendo dançar

Parte Maria 
Que estás toda nua 
Que a lua te chama 
Que estás tão mulher 
Arde Maria 
Na chama da lua 
Maria cigana 
Maria maré

Parte cantando 
Maria fugindo 
Contra a ventania 
Brincando, dormingo 
Num colo de serra 
Num campo vazio 
Num leito de rio 
Nos braços do mar

Vai alegria 
Que a vida, Maria 
Não passa de um dia 
Não vou te prender 
Corre Maria 
Que a vida não espera 
É uma primavera 
Não podes perder 
Anda, Maria 
Pois eu só teria 
A minha agonia 
Pra te oferecer"


  












“Tu, que tanto me ensinaste/de mim a mim mesma, e do mundo/a quem o conhecia pouco://quando se desfizer a noite desta perda,/ quero enxergar pelos teus olhos,/e amar através do teu amor/as coisas que me restaram.” 



Lya Luft, no livro  "O Lado Fatal", página 91

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SONHE!


                            (céu em Porto Alegre é assim...)




SOMOS MENOS DO QUE SONHAMOS


"Sempre é
reconfortante
aprender
dos que
conseguem
partilhar com
os demais."

ABRÃO SLAVUTZKY

"O sonho é uma aptidão da alma que nos permite voar. Foi o que fez uma menina, quando sonhou em ser a rainha do mundo. Perguntei a ela se não sofria ao terminar o sonho e disse que não. Questionei, então, se não preferia que o sonho fosse verdade. Falou que imaginar ser rainha é mais alegre que ser na realidade. Fiquei quieto diante da sabedoria infantil de quem pode simbolizar. Aliás, nós, adultos, iríamos melhorar se fôssemos reeducados pelas crianças. Por exemplo: ninguém melhor do que elas para ensinar a arte de brincar de faz de conta! Na verdade, somos menos do que sonhamos, o que não é negativo, pois o sonho é tempero indispensável no processo criativo.
Por outro lado, há sonhos que, se postos em prática, podem se transformar em pesadelos. Algumas fantasias de sociedades quase perfeitas, de todos os matizes, se revelaram autoritárias e cruéis. Sonhei, como tantos, com um mundo de plena igualdade, justiça social, sem guerras, quase um paraíso. Há muitos anos descobri que havia idealizado, mas foi bom sonhar, assim como é bom conhecer melhor a condição humana. Aprendi que a utopia está no horizonte e serve para caminhar. Portanto, diante das desilusões que doem, há os que se deprimem decepcionados. Já outros aprendem e se recuperam das ilusões perdidas. São os que enriquecem com novos conhecimentos tanto de si como do mundo.
Os sonhos vivem em nós, até os que se perderam pelo caminho. Comigo caminham todos os sonhos, os reveses que sofri, os amigos que perdi, os dias felizes que voaram. Na verdade, o passado são memórias enriquecidas com o tempo e sempre ganham novas versões. O doloroso desafio é aceitar os fracassos, sem esquecer que eles nos constituem. Suportar os dissabores nos faz mais humildes. A humildade, a base das virtudes, é brincar como a menina que desejava ser rainha, pois somos menos que nossos sonhos. Por sua vez, a raiz principal dos sonhos ambiciosos é a vaidade. Foi o que Bertrand Russell escreveu sobre o pesadelo dos matemáticos, quando os números falaram. O primeiro número disse, orgulhoso: eu sou ímpar; já outro falou que era um número primo. E o mais bobo desprezava todos os demais números, pois ele era o número perfeito. Os números humanizados deliram soberbos como todos nós.
Mas podemos imaginar que existem os números solidários. A solidariedade é gerada pela compaixão, pela capacidade de ver mais além de si. É a melhor resposta a uma sociedade onde crescem as competições desenfreadas. São, entre tantos, os anônimos doadores de sangue, os que dão o seu próprio sangue ao próximo. Sempre é reconfortante aprender dos que conseguem partilhar com os demais. São os que não empobreceram cuidando somente de seu jardim. São momentos em que a condição humana transcende na graça. São luzes fraternas que aquecem e aliviam o peso da existência. É quando a luz resplandece nas trevas e o coração se transforma em poeta. É quando, finalmente, somos mais do que sonhamos."


ABRÃO SLAVUTZKY é psicanalista e este artigo foi publicado na OPINIÃO ZH, página de editoriais do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13/09/2012.