Que horas são?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012







“Tu, que tanto me ensinaste/de mim a mim mesma, e do mundo/a quem o conhecia pouco://quando se desfizer a noite desta perda,/ quero enxergar pelos teus olhos,/e amar através do teu amor/as coisas que me restaram.” 



Lya Luft, no livro  "O Lado Fatal", página 91

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

SONHE!


                            (céu em Porto Alegre é assim...)




SOMOS MENOS DO QUE SONHAMOS


"Sempre é
reconfortante
aprender
dos que
conseguem
partilhar com
os demais."

ABRÃO SLAVUTZKY

"O sonho é uma aptidão da alma que nos permite voar. Foi o que fez uma menina, quando sonhou em ser a rainha do mundo. Perguntei a ela se não sofria ao terminar o sonho e disse que não. Questionei, então, se não preferia que o sonho fosse verdade. Falou que imaginar ser rainha é mais alegre que ser na realidade. Fiquei quieto diante da sabedoria infantil de quem pode simbolizar. Aliás, nós, adultos, iríamos melhorar se fôssemos reeducados pelas crianças. Por exemplo: ninguém melhor do que elas para ensinar a arte de brincar de faz de conta! Na verdade, somos menos do que sonhamos, o que não é negativo, pois o sonho é tempero indispensável no processo criativo.
Por outro lado, há sonhos que, se postos em prática, podem se transformar em pesadelos. Algumas fantasias de sociedades quase perfeitas, de todos os matizes, se revelaram autoritárias e cruéis. Sonhei, como tantos, com um mundo de plena igualdade, justiça social, sem guerras, quase um paraíso. Há muitos anos descobri que havia idealizado, mas foi bom sonhar, assim como é bom conhecer melhor a condição humana. Aprendi que a utopia está no horizonte e serve para caminhar. Portanto, diante das desilusões que doem, há os que se deprimem decepcionados. Já outros aprendem e se recuperam das ilusões perdidas. São os que enriquecem com novos conhecimentos tanto de si como do mundo.
Os sonhos vivem em nós, até os que se perderam pelo caminho. Comigo caminham todos os sonhos, os reveses que sofri, os amigos que perdi, os dias felizes que voaram. Na verdade, o passado são memórias enriquecidas com o tempo e sempre ganham novas versões. O doloroso desafio é aceitar os fracassos, sem esquecer que eles nos constituem. Suportar os dissabores nos faz mais humildes. A humildade, a base das virtudes, é brincar como a menina que desejava ser rainha, pois somos menos que nossos sonhos. Por sua vez, a raiz principal dos sonhos ambiciosos é a vaidade. Foi o que Bertrand Russell escreveu sobre o pesadelo dos matemáticos, quando os números falaram. O primeiro número disse, orgulhoso: eu sou ímpar; já outro falou que era um número primo. E o mais bobo desprezava todos os demais números, pois ele era o número perfeito. Os números humanizados deliram soberbos como todos nós.
Mas podemos imaginar que existem os números solidários. A solidariedade é gerada pela compaixão, pela capacidade de ver mais além de si. É a melhor resposta a uma sociedade onde crescem as competições desenfreadas. São, entre tantos, os anônimos doadores de sangue, os que dão o seu próprio sangue ao próximo. Sempre é reconfortante aprender dos que conseguem partilhar com os demais. São os que não empobreceram cuidando somente de seu jardim. São momentos em que a condição humana transcende na graça. São luzes fraternas que aquecem e aliviam o peso da existência. É quando a luz resplandece nas trevas e o coração se transforma em poeta. É quando, finalmente, somos mais do que sonhamos."


ABRÃO SLAVUTZKY é psicanalista e este artigo foi publicado na OPINIÃO ZH, página de editoriais do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 13/09/2012.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

MÚSICA











                      
                                            (O amor é perfeito)


VAI  PASSAR



(Fabrício Carpinejar)




"Ao fazer meu check-in no terminal do aeroporto, empaco e crio fila. Não superava a etapa: qual o contato de emergência? Nome? Telefone?

Não digitava nada. Quem colocar? Quem vai velar por mim depois que você foi embora?

Sobrevivo assim a maior parte do tempo.



Quando ando pela rua, reviso os bolsos, fraquejo com a memória, me assusto com as coincidências. Saio de casa com a impressão de que deixei a cafeteira ligada, a porta destrancada.

Qualquer atitude esconde sua ausência. Todo lugar que já estivemos me rebobina. Olho, e me perturbo. Se avisto um twingo, corro para ler a placa. Se percorro Ipanema, vejo sua sorveteria predileta e minha boca procura reaver o cheiro de pistache. Quando atravesso a faculdade, recordo o quanto desejava ter um leão de pedra no pátio de sua casa. São observações aleatórias, coisas que diríamos.

De tanto antecipá-la em pensamento, hoje minhas palavras me atrasam.

Nem dormindo não tenho paz. Eu me acordo cinco vezes por noite. Consulto o relógio a cada duas horas até amanhecer. Despertar é uma vitória, como uma festa ruim que dependemos de carona.

Antes explicava para as pessoas que estava separado. Agora cansei. Se me perguntam de sua presença, respondo: — Tudo bem! E terminou o assunto. Explicar constrange.

O que mais me atormenta é que os amigos e familiares usam o mesmo bordão para me acalmar:

— Vai passar.

Não é um conselho alegre. Não me tranquiliza saber que terminaremos.

É uma advertência que me desespera. Não gostaria que passasse.

Eles não entendem que não sofro porque o amor acabou, sofro para não acabar o amor.

Sou contrário ao término, me oponho à nossa extinção.

Sou o único que resiste contra o fim de nossa história.

Eu não quero que passe. Mas sei que vai passar.

Sei que o amor vai morrer desidratado, faminto, por absoluta falta de cuidado.

Vai passar, infelizmente.

Tudo o que a gente construiu junto vai passar.

Tudo o que a gente idealizou, inventou e armou vai passar.

O lugar no peito que recebia seu rosto para dormir vai passar.

Nossos apelidos, nossos chamados, nossas piadas vão passar.

Por mais que acredite que seja impossível, irei namorar de novo, me apaixonar, casar e rir docemente sem culpa.

Vai passar.

Não superamos os medos, sucumbimos na segunda crise, desistimos de insistir.

Somos fracos, somos influenciáveis, somos tolos.

Foi muita incompetência de nossa parte.

Não seremos inesquecíveis.

Vai passar."



terça-feira, 11 de setembro de 2012







"E a chuva cai, de mansinho, dos meus olhos."




                             (Helena Britto Pereira)


                                         (vi esta pimentinha em MG)


"Tão súbito,
inesperado desencanto que
lanceta alma e coração.
De golpe certeiro vai
sangrando o tão amorosamete acumulado.
Desconstrução do grandioso é para os muito
fortes."



(Helena Britto Pereira)



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

                                       (1970)


Para começar a semana, as palavras do meu amigo Carlos Eduardo Leal. Buscar a essência e a simplicidade das coisas, mudar os tons dos dias e o compasso das horas. E viver, simplesmente VIVER.


Como fazer para encontrar o céu aqui na Terra?



"1- Deixe de lado os preconceitos
2- Siga o preceito do seu coração
3- Seja alegre
4- Se permita também ser triste
5- Se permita até não ser
6- O ser humano é isso: alegre e triste, simples e trêmulo
7- Esqueça as horas
8- Mas não das pessoas
9- Procure pelo seu irmão
10- Mas não tente achar sua irmã (permita que ela vá, livre como os dias que sempre ondulam)
11- Apenas permita que ela te ache
12- Abra os braços para um abraço
13- Abra as mãos para os aflitos
14- Segure sua mão oposta
15- Segure a queda premeditada
16- Não ponha invólucros no sorriso
17- Costure uma roupa alegre
18- E também outra com o tecido da dignidade
19- Não saia de casa à toa
20- Mas saia de casa para ficar à toa
21- Encontre um amigo perdido
22- Encontre alguém perdido
23- Faça dele um amigo
24- Saiba encontrar o sol num dia chuvoso
25- Principalmente para aqueles desabrigados pela vida
26- Saiba ouvir o canto dos pássaros
27- Mesmo que eles só existam na sua imaginação
28- Renuncie ao ato contínuo de renunciar a vida
29- Renuncie ao desespero
30- Renuncie ao fato de querer dar trégua a vida
31- Não renuncie nunca ao amor
32- Nem tenha medo de amar apaixonadamente
33- Mesmo que dele não se tenha muitas esperanças
34- Regue a vida com um balde de carinho
35- Regue um encontro
36- Plante uma semente de futuros
37- Regue com acordes suaves
38- Espere para ver os sons nas tonalidades das nuvens
39- E os galhos vergando para dar sombra a sua alma
40- Estremeça com o frio
41- Dos corações gélidos de indiferença
42- E dos desagasalhados pela vida
43- Indigne-se com a falta de indignação
44- Plante uma lágrima
45- Numa caixa de lenços abandonada pelos amantes
46- Desenvolva projetos
47- Um trevo em forma de anjo
48- Um manto costurado de sorrisos
49- Uma pegada recente plantada na relva macia
50- Acredite que você acredita em seus sonhos
51- Em que crêem os que não crêem?
52- Suba uma colina e de lá grite uma palavra que nunca tenha sido dita
53- Invente uma palavra e ela já será uma frase, uma sentença, uma
oração
54- Assim, os céus descerão
55- Dê uma bússola para seus filhos
56- E ofereça o caminho do mundo para eles
57- Encontre o filho perdido dos outros
58- Você - nunca se esqueça - pode ser a bússola que eles necessitam
59- Reserve um lugar na primeira fila da generosidade
60- Mas justamente por isso compre mais um lugar
61- Nunca se sabe quem estará precisando
62- Há sempre alguém a mais
63- Há sempre alguém com menos
64- Reserve a expectativa para O Encontro
65- Seja gentil, isso gera Gentileza
66- Não desperdice sua bondade com quem não a mereça
67- Não se impaciente com o atraso dos outros
68- Mas se impaciente com o pouco caso, a indiferença
69- Pegue seu saca-rolhas preferido
70- Abra uma garrafa de nuvens
71- Abra um pote de anti-guerras
72- Abra uma lata de soluções
73- Procure freneticamente a sua
74- Alie-se ao mar
75- Alicie-se com suas espumas
76- Recrie o vento
77- Sopre um sudoeste em seus próprios cabelos
78- Mova as dunas de lugar
79- Desperte um rio
80- Seja uma correnteza
81- Deságue suavemente no mar
82- Veja que você pode ser doce e abissal ao mesmo tempo
83- Seja luz para que haja sombras
84- Seja inverno para que te sucedam primaveras
85- Seja complexo para que possam achar em você suas partes mais
simples
86- Eleve uma criança ao colo
87- Eleve um pensamento
88- Não crie limo para outros escorregarem
89- Antes, seja um tobogã de vertigens
90- Leia um livro para um cego
91- E também para uma criança ainda cega para o alfabeto
92- Conte uma história inesquecível
93- Invente muitas outras
94- Se invente, ou melhor, reinvente-se a cada dia
95- Seja um agricultor de verdades
96- Semeie com seus princípios
97- Adube com os meios mais sinceros
98- Certifique-se da honestidade dos fins
99- Mas não abra mão da colheita afinal,
100- Home is where the heart is.
101- Seja simples
102- Pinte um quadro
103- Dilua-se em cores
104- Não seja noir, black
105- Mas permita-se ser dark
106- Cante um hino
107- Pinte sua história
108- Seja um cavalete para os instáveis
109- Dilua-se em outros
110- Mas nunca se perca de você mesmo
111- Equilibre-se numa única nota
112- Faça dela sua harmonia
113- A partitura da sua vida
114- Crie cores jamais inventadas
115- Sorria em lilás
116- Faça um aperto de mão em azul cobalto
117- Dê um abraço em Terra di Siena
118- Solfeje em verdes Paul Veronese
119- Reze em amarelo van Gogh
120- Tome um café às margens do Danúbio
121- Suba o Everest dos teus sonhos
122- Eleve-se um degrau acima em tua vida
123- Seja você e mais alguém
124- Seja outros, plural
125- Mas permita-se sentir a solidão pela falta destes mesmos outros
que habitam em você
126- Incline-se um pouco mais para ouvir o outro
127- Curvar-se pode ser um ato majestoso
128- No fundo, você estará reverenciando a você mesmo
129- Um gesto para ser seguido por todos ao infinito
130- Passe um café para seu amor ao cair da tarde
131- E verás a tarde soerguer-se impávida, um colosso
132- Festeje o aroma da broa de milho
133- Lembre-se que um simples campônio plantou, regou, até que a
espiga estivesse pronta para seu usufruto
134- Lembre-se deste seu parceiro imaginário
135- Porque lembrar-se dos outros também é cuidar
136- Portanto, para cuidar de você mesmo, basta que não se esqueça de
você mesmo
137- Lembre-se da sua infância
138- Da primeira goiaba comida
139- Da primeira árvore que subiu na vida
140- Da primeira queda
141- Ah, este foi seu outono
142- Caíste com a primeira folha / outono da vida
143- E descobriste o valor de aprender a se erguer
144- Mas, lembre-se também do primeiro amigo na escola
145- Da primeira professora
146- Do primeiro brinquedo
147- E da primeira traquinagem feita com seu melhor amigo
148- Suspire pela lembrança do primeiro olhar apaixonado
149- Sorria tristemente ao lembrar-se do primeiro não
150- Conte para todos como foi seu primeiro sim
151- O susto, a emoção e a ardência do primeiro beijo
152- Ah, quanto encanto há no primeiro beijo
153- Ainda não se está no mundo da lua, mas pode ser seu Everest
154- A doce escalada até a conquista do outro
155- Não deixe a tinta do seu passado amarelar
156- Pegue suavemente o pincel
157- Faça do seu corpo uma tela viva, caliente
158- Onde outros possam perder seus olhares em suas campinas
verdejantes
159- Mergulhe em Rouge Naphtol Noir, a cor inconfundível das paixões
160- Apaixone-se pelo adolescente que você foi
161- Seja uma ilha de fantasias possíveis
162- Recrie antigos conceitos
163- Uma ilha pode ser uma pessoa cercada de felicidade por todos os
lados
164- Então, pule a cerca e caia nela
165- Uma ilha é um oceano de possibilidades
166- É sentir o aroma da primeira fornalha, e ser grato por poder
presenciar este momento mágico, solene
167- Há milhões de pessoas neste mundo que esperam ansiosos por este
instante
168- Assim como uma lagarta sonha em ser borboleta
169- Assim como um salmão sonha em subir o rio
170- Ou como um filhote de pássaro aguarda para arriscar o primeiro
vôo
171- Assim também o jaguar corre desenfreado atrás de sua gazela
172- Ou como os corvos festejam o amadurecimento do milho
173- Faça um espantalho para espantar os humanos-corvos
174- Espante-se com a vida, não seja indiferente a ela
175- Afague um cachorro
176- Ande num cavalo a galope
177- Amarre com cipó um feixe de lenha
178- Procure pelos gravetos mais simples
179- Estes lhe darão o melhor fogo
180- Para queimar os temores
181- Para dissipar a escuridão de suas trevas
182- Não se afaste das sensações tormentosas
183- Tente, ao menos, compreendê-las
184- Asse um peixe, multiplique seus pães
185- Convide os amigos para um vinho
186- Suba uma serra com névoas
187- Deite sobre uma pedra
188- Olhe atentamente para as nuvens que festejam sua chegada
189- Elas indicarão a direção do vento
190- Pense que essa direção pode ser o sentido há muito esperado para
sua vida
191- Recrie sentidos, nuvens-animais, nuvens-castelos, nuvens-
hieróglifos
192- Invente novos rumos, outros caminhos
193- Mergulhe no rio, que é sempre outro
194- Mergulhe em outras vidas
195- Prenda a respiração
196- Solte lentamente o ar
197- O seu e o dos outros
198- Compartilhem do mesmo ar / hálitos da vida
199- Seus desejos / Seus enamoramentos / Seus encantos
200- Mas, mistério! Nunca revele todos os seus segredos..."


(Carlos Eduardo Leal)





"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
...
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
...
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."



João Cabral de Melo Neto