Que horas são?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012






"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
...
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
...
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."



João Cabral de Melo Neto


DO PONTO DE VISTA...





"Do ponto de vista da terra quem gira é o sol
Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito
Do ponto de vista do ponto o círculo é infinito
Do ponto de vista do cego sirene é farol

Do ponto de vista do mar quem balança é a praia
Do ponto de vista da vida um dia é pouco
Guardado no bolso do louco
Há sempre um pedaço de deus
Respeite meus pontos de vista
Que eu respeito os teus

Às vezes o ponto de vista tem certa miopia,
Pois enxerga diferente do que a gente gostaria
Não é preciso por lente nem óculos de grau
Tampouco que exista somente
Um ponto de vista igual

O jeito é manter o respeito e ponto final."


domingo, 9 de setembro de 2012

sábado, 8 de setembro de 2012

                                                (meu amor-perfeito)



"Deixaste muda a palavra que

Incompreendida,  perde a ousadia e
nunca mais quer dizer o que sente.
Triste mente,  tristemente"




Da Helena Britto Pereira que sabe conjugar os verbos da vida. 









A Angela Lago é escritora, artista plástica, ilustradora e doce na voz e na escrita. Conheci a Angela no Facebook e a delicadeza do seu trabalho me encanta. No vídeo ela fala das ilustrações que fez para a poesia de Drummond no livro "MENINO DRUMMOND"
Para conhecer mais da Angela, visite o seu site        http://www.angela-lago.net.br/

TRÊS PRESENTES DE FIM DE ANO

I

"Querida, mando-te
uma tartaruguinha de presente
e principalmente de futuro
pois viverá uma riqueza de anos
e quando eu haja tomado a estígia barca
rumo ao país obscuro
ela te me lembrará no chão do quarto
e te dirá em sua muda língua
que o tempo, o tempo é simples ruga
na carapaça, não no fundo amor.

II

Nem corbeilles nem
letras de câmbio
nem rondós nem
carrão 69
nem festivais
na ilha d’amores
não esperes de mim
terrestres primores.
Dou-te a senha para
o dom imperceptível
que não vem do próximo
não se guarda em cofre
não pesa, não passa
nem sequer tem nome.
Inventa-o se puderes
com fervor e graça.

III

Sempre foi difícil
ah como era difícil escolher
um par de sapatos, um perfume.
Agora então, amor, é impossível.
O mau gosto
e o bom se acasalaram, catrapuz!
Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora
ou tem medo de dizer que é medonho?
E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona?
Aquela poesia? Hem? O quê? Não ouço
a sua voz entre alto-falantes, não distingo
nenhuma voz nos sons vociferantes…
Desculpe, amor, se meu presente
é meio louco e bobo
e superado:
uns lábios em silêncio
(a música mental)
e uns olhos em recesso
(a infinita paisagem)."


Carlos Drummond de Andrade



                                                           (uma rosa cor-de--rosa)


ONDE FALHEI?




(Fabrício Carpinejar)



Quando você se separa, faz uma reconstituição dos últimos momentos do relacionamento. Busca descobrir o que aconteceu de errado, o estopim do abandono, o que provocou a saída da até então inseparável companhia. Algumas hipóteses:

— Não deveria ter vencido seu pai no pinogol.

— Não deveria ter quebrado o LP de Ritchie.

— Não deveria ter dado seu presente de aniversário um mês antes.


— Não deveria ter criticado a bagunça de seu carro.

— Não deveria ter retirado mais um rótulo do pote de requeijão. Era o décimo e oitavo copo consecutivo.

— Não deveria pegar seu colete emprestado para aparecer na televisão.

— Não deveria ter lavado a louça na frente de suas colegas.

— Não deveria ter contado minha fantasia sexual com Gina dos palitos de dente.

— Não deveria ter perguntado como foi a consulta com o dentista.

— Não deveria ter estacionado cinco quadras longe do restaurante.

— Deveria ter dito que gostava do UFC.

— Deveria ter devorado um prato cheio de rúcula e agrião para assustá-la.

— Deveria ter roubado seu protetor de ouvido na hora de dormir – sem o ronco, ela perdeu sua referência amorosa.

— Deveria ter mandado apenas seis e-mails por dia.

— Deveria ter dados motivos para que me matasse mentalmente.

— Deveria ter questionado sua adoração por Brigitte Bardot e cílios postiços.

— Deveria ter estranhado sua paixão súbita por teatro gaúcho.

— Deveria tê-la acompanhado para assistir a pré-estreia de Mercenários 2.

— Deveria ter jogado fora sua coleção de CDs do Serge Gainsbourg.

— Deveria ter lido "Sei que vou sair dessa" escondido no banheiro.

Se você não conseguiu rir, está realmente paranoico. Desculpe informar, mas não somos o centro do mundo. E ela nem está pensando em mim e nunca verá essa brincadeira."


sábado, 1 de setembro de 2012


                               (meu pai morou nesta rua...)




Poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul


(Fabrício Carpinejar)


Fragmento I




"Pouco crescemos 
no que aprendemos,
o sabor 

de um livro antigo
está em jovem 
esquecê-lo.

Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras 

na estante.
Mudava os títulos 
de endereços

em tua biblioteca
e rastreavas, ensandecido,
aquele morto encadernado 

que ressuscitou
quando havias enterrado 
a leitura,

aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova 
aberta na coleção.

Sou também um livro 
que levantou
dos teus olhos deitados.

Em tudo o que riscavas,
queria um testamento. 
Assim recolhia os insetos 

de tua matança,
o alfabeto abatido 
nas margens.

Folheava os textos,
contornando as pedras 
de tuas anotações. 

Retraído, 
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.

Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade

e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,

premeditando 
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,

visceral, 
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,

cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,

um oceano 
na fruta branca. 
Pretendias impressionar 

o futuro com a precocidade.
A mãe remava 
em tua devastação,

percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino, 
uma agulha cerzindo 

a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,

descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde

para a ceia.
Preparava o jantar 
com as sobras do almoço.

Lia o que lias, 
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz."





                              (café da manhã...)







BIOFAGIA




"É vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.
Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.
Até chegar ao fim da voz.
Até ser um corpo sem foz."




MIA COUTO