"É vitalício: comer a Vida deitando-a entontecida sobre o linho do idioma. Nesse leito transverso dispo-a com um só verso. Até chegar ao fim da voz. Até ser um corpo sem foz."
MIA COUTO
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
(a arte da Miriam Postal)
JANELA
Adélia Prado
"Janela, palavra linda. Janela é o bater das asas da borboleta amarela. Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada, janela jeca, de azul. Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você, meu pé esbarra no chão. Janela sobre o mundo aberta, por onde vi o casamento da Anita esperando neném, a mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai: minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis. Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão, clarabóia na minha alma, olho no meu coração."
(A arte da Miriam Postal está na loja da Maria Teresa Objetos Decorativos
Rua Tobias da Silva, 174 Bairro Moinhos de Vento em Porto Alegre)
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
(Vi este anjo anunciando o Amor...)
"Não confie na frase de sua avó, de sua mãe, de sua irmã de que um dia encontrará um homem que você merece. Não existe justiça no amor. O amor não é democrático, não é optar e gostar, não é promoção, não é prêmio de bom comportamento. Amor
é engolir de volta os conselhos dados às amigas. Não se apaixonará pela pessoa ideal, mas por aquela que não conseguirá se separar. A convivência é apenas o fracasso da despedida. O beijo é apenas a incompetência do aceno. Amor é uma injustiça, minha filha. Uma monstruosidade. Você mentirá várias vezes que nunca amará ele de novo e sempre amará, absolutamente porque não tem nenhum controle sobre o amor."
Fabrício Carpinejar
(Trouxe o anjo lá da Maria Teresa Objetos Decorativos Rua Tobias da Silva, 174 Bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre)
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Katya Fairy
SPRING FLOWER
27 cm. papier mache, modelling clay
"a tarde é uma menina antiga vestida de muitas saias
saiotes de renda
faces coradas de sol
brinca de roda até que a velha noite chame
e ela então se recolhe
num casarão imenso de muitas portas
e infinitas janelas
atrás das cortinas espera que a antemanhã
ressurja - mulher
plena de cores e mistérios chaves nas mãos
e avental de nuvens
como convém às manhãs parideiras."
Nydia Bonetti
(Arte no Centro de Cultura de Santo Antonio de Lisboa,SC)
A Força de não ter Força
"Eu a canga e o amor o brilho. Eu a pedra e o amor a gema. Eu o gemido e o amor o canto.
Eu o transido e o amor o vento. Eu grão-podrido do amor arvoredo. Eu as cinzas, os senões
de seu alento alteando-se chama. Eu ao meio, a pedaços e farpas, pondo-me inteira a sua agulha,
a seu amálgama de suor e sal, que meu sabor é sabê-lo e meu saber é saboreá-lo."
Maria Carpi, A Força de não ter Força - Editora Bertrand Brasil, 2004
terça-feira, 28 de agosto de 2012
ENCANTAÇÃO PELO RISO
"Ride, ridentes! Derride, derridentes! Risonhai aos risos, rimente risandai! Derride sorrimente! Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores! Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros! Sorrisonhos, risonhos, Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Um pensamento delicado da Helena Britto Pereira, que conheci no Facebook e escreve com o coração na ponta dos dedos. A arte (?!) da fotografia é minha. É o registro que fiz de uma camisa branca masculina. Um tecido feito de afeto. Por empréstimo, deixei meu olhar nele...
"No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto
a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso, maldito seja que olhas pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais
mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas."