Que horas são?

domingo, 15 de julho de 2012

                                       (fiz esta foto na casa do meu irmão, inverno passado)




Domingo de sol e muito, muito frio. A temperatura mínima de hoje foi  três graus. E a gripe me visita trazendo com ela os sintomas que me fazem prostrada, lenta, incomodada. Respirar é o ato mais difícil nestes dias e o corpo dói.

Esta é uma boa oportunidade para lembrar que cada movimento, cada função do nosso corpo, por irrelevante que possa parecer, é tão importante para a sensação de felicidade que buscamos vivenciar. Das felicidadezinhas que a vida nos proporciona, a ausência de doenças  é a mais valiosa de todas.
Nenhum passo é dado sem que o Divino permita. Nenhuma situação acontece sem que traga consigo algum aprendizado.
Recolhimento, sopa quentinha, vitamina C e paciência ajudam na recuperação. De todos, preciso aprender a cultivar a paciência. Sempre é tempo.


SEU  NOME

                          (jardins da PUC/RS, nov/2009)




Gosto da poesia do Fabrício Corsaletti. É intensa, visceral e viva. Este poema, em especial, traz todos os significados de um estado apaixonado.  Tem a força da entrega, do deslumbramento, da energia inexplicável do amor. Declara, escancara, expõe. Uma das maiores qualidades de quem ama é a coragem para vivenciar o amor em sua plenitude. E nomear seus sentimentos desprendendo-se dos laços que impedem a própria felicidade.

Amar é declarar.








SEU  NOME



"Se eu tivesse um bar ele teria seu nome; 
Se eu tivesse um barco ele teria seu nome, 
Se eu comprasse uma égua daria a ela seu nome; 
Minha cadela imaginária tem o seu nome;
Se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo seu nome; 
Se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome; 
Se for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome; 
Se encontrarem o meu corpo boiando no mar, no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome;
Se eu me suicidar, ao puxar o gatilho pensarei no seu nome;
A primeira garota que beijei tinha o seu nome; 
Na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome; 
Antes de você tive três namoradas com o seu nome; 
Na rua há mulheres que parecem ter o seu nome;
Na locadora que freqüento tem uma moça com o seu nome; 
Às vezes as nuvens quase formam o seu nome; 
Olhando as estrelas eu sempre consigo desenhar o seu nome;
O ultimo verso do famoso poema de Eloá poderia muito bem ser o seu nome; 
Apolineris escreveu poemas à lua porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome; 
Não entendo porque Chico Buarque não compôs uma musica para o seu nome; 
Se eu fosse um travesti usaria o seu nome; 
Se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome; 
Minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome; 
Se eu tiver uma filha ela terá o seu nome; 
Minha senha do emai-l já foi o seu nome; 
Minha senha do banco é uma variação do seu nome; 
Tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem mãe ao invés do seu nome; 
Tenho pena dos seus pais porque em geral dizem filha ao invés do seu nome; 
Tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome; 
Tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome; 
Quando fico bêbado falo muito o seu nome; 
Quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome;
É difícil falar de você sem mencionar o seu nome; 
Uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome; 
Coelho tinha o seu nome, xícara tinha o seu nome, teleférico tinha o seu nome;
No índice aromático da minha biografia, haverá milhares de ocorrências do seu nome; 
Na falta de corda para onde olha o luthier se não para o infinito do seu nome; 
Algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome; 
Detesto o trabalho porque me impede de concentrar no seu nome; 
Cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome; 
No cabo da minha bengala gravarei o seu nome; 
Não posso ser niilista enquanto existir o seu nome;
Não posso ser anarquista sem suplicar a declaração do seu nome; 
Não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome; 
Não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome; 
Não posso ser capitalista se não desejo nada alem do seu nome;
Quando eu saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome; 
Morei três anos num bairro que tinha o seu nome;
Espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome; 
Espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome; 
Espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome; 
Espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome;
A literatura não me interessa tanto quanto o seu nome; 
Quando a poesia é boa é como o seu nome;
Quando a poesia é ruim tem algo do seu nome; 
Estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome; 
Estou escrevendo o 58º verso sobre o seu nome; 
Talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome; 
Por via das duvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome."





sexta-feira, 13 de julho de 2012

         "Os olhos são a janela da alma."









PIEDRITAS   EN   LA   VENTANA




Mario Benedetti



"De vez en cuando la alegría
tira piedritas contra mi ventana
quiere avisarme que está ahí esperando
pero me siento calmo
casi diría ecuánime
voy a guardar la angustia en un escondite
y luego a tenderme cara al techo
que es una posición gallarda y cómoda
para filtrar noticias y creerlas


Quién sabe dónde quedan mis próximas huellas
ni cuándo mi historia va a ser computada
quién sabe qué consejos voy a inventar aún
y qué atajo hallaré para no seguirlos




Está bien no jugaré al desahucio
no tatuaré el recuerdo con olvidos
mucho queda por decir y callar
y también quedan uvas para llenar la boca


Está bien me doy por persuadido
que la alegría no tire más piedritas
abriré la ventana
abriré la ventana."






                (folhas de inverno em Porto Alegre...)





“As pessoas quebram. É quase como se Drummond fosse uma espécie de Buda e a poesia dele me ensinasse a iluminação pelo desapontamento. Lendo Drummond, descobri que as coisas têm que quebrar, e só quando elas quebram você consegue ver como são por dentro se tiver um bom – como ele diz – sentimento do mundo."


Carlito Azevedo, falando sobre Drummond, na FLIP 2012. Carlito é editor, crítico e poeta brasileiro.



quinta-feira, 12 de julho de 2012





Artigo publicado na Revista Metáfora, edição nº 08, páginas 24, 25 e 26.




FOME DE POESIA


Aos 47 anos de carreira e no álbum 50º, Bethânia grava, pela primeira vez, poema de sua autoria


André Bernardo



"Ainda hoje, a cantora Maria Bethânia cumpre o intrigante ritual de queimar tudo o que escreve. Esse ato, diz, é ao mesmo tempo, libertário e purificador. “Não sou de mostrar o que escrevo para os outros. Escrevo para mim mesma”, justifica. Ano passado, Bethânia abriu uma honrosa exceção para Carta de Amor. Em vez de queimar o texto, como já fez com tantos outros, resolveu publicá-lo em seu novo CD. E mais: foi no poema que buscou inspiração para batizar o 50º álbum de sua carreira, Oásis de Bethânia, lançado pela gravadora Biscoito Fino. “Desta vez, senti necessidade de dizer aquelas palavras”, afirma. Há quem garanta que o poema Carta de amor seja uma resposta tardia a todos que, no ano passado, criticaram duramente Bethânia por causa do blog O mundo precisa de poesia. Na ocasião, os idealizadores do projeto, o antropólogo Hermano Vianna e o cineasta Andrucha Waddington, receberam autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão. “Infelizmente, houve um desagravo tão pesado e soturno que Hermano cancelou o projeto”, lamenta.

O cancelamento do blog não impediu Bethânia de continuar fazendo o que mais gosta: recitar poesia. No segundo semestre, paralelamente à turnê de “Oásis de Bethânia”, ela pretende retomar o recital “Bethânia e as palavras”, onde intercala música e poesia, duas de suas paixões. “A arte só existe porque a vida não basta”, reitera, citando Ferreira Gullar. Outro de seus poetas favoritos, o português Fernando Pessoa, também marca presença no álbum. É dele o poema Não
sei quantas almas tenho, escrito sob o heterônimo de Bernardo Soares, que pontua a canção Calmaria, composta pelo sobrinho, Jota Velloso. “Ah, o Pessoa é o poeta da minha vida”, derrama-se a cantora que, em 2010, ganhou a medalha da Ordem do Desassossego, em reconhecimento à divulgação da obra do poeta português.

Poesia cantada. Pela primeira vez em 47 anos de carreira, Bethânia gravou um poema de sua autoria. Ela explica o motivo:

Desde moça, sempre gostei muito de escrever. Mas sou do tipo que escreve para mim mesma. Com exceção do meu analista e de uns poucos amigos, como Fauzi (Arap) e Elias (Andreato), não gosto de mostrar o que escrevo para os outros. O poeta Waly Salomão é um dos que sempre se interessaram em ler o que eu escrevia. «Soube que você passou o final de semana escrevendo, é verdade?”, vivia perguntando. “Pois é, escrevi”. “Vou aí”, avisava. “Não venha porque já queimei…” (risos) Ano passado, porém, escrevi “Carta de Amor” e gostei. Precisava escrever aquelas palavras. E mais: precisava dizer aquelas palavras. E disse. Não sei se é certo ou errado, bonito ou feio, mas disse…

Se  “Carta de Amor” seria uma resposta para quem a criticou no ano passado por causa do blog “O mundo precisa de poesia”?, ela comenta:

Não escrevo para quem acho que não pode me compreender. Se dissesse que escrevi “Carta de Amor” pensando nisso ou naquilo, ficaria pequeno. Escrevi “Carta de Amor” para me livrar de dores, mágoas, angústias… Quem quiser vestir a carapuça que vista…

O surgimento da ideia de participar de um blog sobre poesia?

O blog foi uma ideia do Hermano (Vianna) e do Andrucha (Waddington), amigos amados. Um dia, eles me viram recitando poesia na Casa do Saber (RJ) e me convidaram para participar de um projeto que já existia. Fiquei honradíssima com o convite. Mas aí teve aquele desagravo tão pesado e soturno que o Hermano resolveu cancelar o projeto. Espero que, um dia, ele possa retomá-lo. Seria bom se a poesia pudesse, através da força da internet, chegar às pessoas em toda hora e em todo lugar. O pessoal se aproveitou da polêmica para me bater. E bateram muito. Mas, como diz o Chico, “eu não quebro porque sou macia”…

Sobre intenções de que um dia ela possa enveredar pela literatura, como Chico Buarque ou Caetano Veloso:

(risos) Não pretendo virar escritora. Nem quero. Sou apenas uma cantora popular que ama o seu ofício. Já temos excelentes escritores no Brasil. Escrevo apenas para me resguardar da superexposição do palco. Adoro escrever. Pode até ser que, no futuro, eu venha a escrever outros textos, não sei. Como também não sei se vou querer publicá-los…

Bethânia recitou, em alguns de seus shows, poetas como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector. Seus escritores prediletos:

Bem, Fernando Pessoa é o poeta da minha vida. De todos, é de quem eu mais gosto. Mas também gosto de Sá de Miranda, (António) Botto, Sophia (de Mello Breyner)… No Brasil, gosto de Clarice (Lispector), Ferreira (Gullar) e Nélida (Piñon)… Ano passado, Nélida me escreveu uma carta linda, onde dizia: «De uma coisa você está proibida: não derrame uma só lágrima… O Brasil não merece!» Sou muito grata a Nélida. São muitos os escritores brasileiros que admiro. Fica até difícil escolher um ou outro. Não quero cometer a injustiça de esquecer ninguém porque não quero ninguém zangado comigo… (risos)

Desde 2009, a cantora apresenta o espetáculo “Bethânia e As Palavras”, onde intercala música e poesia. Eis o pensamento da cantora sobre a necessidade de poesia no Brasil.

Há uma fome de poesia no Brasil que você nem imagina… E não é somente poesia, é literatura de modo geral. Sempre que há uma bienal infantil, por exemplo, você vê a loucura que é. A fome de cultura é cada vez maior. Eu diria até que cresce na mesma velocidade que a estupidez do mundo. Infelizmente, a estupidez faz mais barulho… O mundo está grosseiro, sem classe, sem delicadeza. Ninguém mais quer prestar atenção aos detalhes… O som da poesia, como diria Baudelaire, se não me engano, é o de uma pétala caindo no abismo. Infelizmente, quando passa, a cavalaria abafa o som da poesia. Mas a fome de poesia existe. E, acredite, está cada vez maior…"




quarta-feira, 11 de julho de 2012

                                                      (verão em Copacabana...)




"Deus envia os ventos, mas é o homem que deve içar as velas." 


Santo Agostinho,teólogo e filósofo(354-430)


terça-feira, 10 de julho de 2012

"Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para..."
(Lenine)



Por que há momentos na vida em que é preciso ter paciência para esperar que o TEMPO, implacável e sábio, reconfigure as situações. Este texto do David Coimbra faz lembrar do quanto somos imediatistas na dor, queremos que passe logo, que tudo volte ao normal, que algo ou alguém nos livre do sofrimento. E é necessário compreender que a vida ensina por duas vias: pelo amor e/ou pela dor e não há aprendizado sem experiência.  Mas, às vezes, podemos ter a felicidade de receber o afeto das pessoas e tudo fica mais iluminado. Minha mãe é assim, sabe dar colo de uma maneira única e faz a dor parecer menor. E de paciência e coragem ela entende.

                       (um cantinho da casa da minha mãe)





POR QUE NÃO PASSA?



(texto do DAVID COIMBRA, publicado no jornal Zero Hora, em 10/07/2012)







"Meu filho era ainda pequeninho, devia ter uns dois anos, quando meteu um brinquedo na boca e se machucou. 
Um desses ferimentos comuns de infância, mas foi algo bem dolorido. 
Ele começou a chorar muito. 
Peguei- o no colo, tentei consolá- lo, não adiantava. 
Ele gritava: – Por que não passa? Por que não passa? Até hoje sinto uma fincada no peito ao lembrar. 
O mundo perfeito seria o dos filmes, em que a dor passa de um momento para outro, com a administração de um único remédio. 
Basta um unguento ou uma sopa ao pé da cama, ou uma frase inteligente que desvenda a verdade para quem se aflige e, pronto, o sofrimento se esvai, a pessoa sorri e tudo volta ao normal. 
Mas a vida não é assim. 
Tive de dizer para meu filho que, na vida, nenhuma dor passa de imediato, nenhuma dor desaparece numa única noite. 
As coisas evoluem devagar e só se resolvem depois de várias noites, com paciência e coragem. 
Paciência para não mexer ainda mais no ferimento. 
E coragem para suportar a dor momentânea, que ela será, de fato, momentânea. [...]"





domingo, 8 de julho de 2012

                                                              (assim eu vi os contornos do Rio Grande do Sul)
                                                                          




“Se as portas da percepção se desvelarem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita.”

William Blake