"Entre um olhar sutil e uma flor revelada está a alma de quem me entende..."
quarta-feira, 11 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
EIS
"E depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero...
Eis que as três horas da madrugada eu me acordei
E me encontrei
Simplesmente isso:
Eu me encontrei calma, alegre
Plenitude sem fulminação
Simplesmente isso
Eu sou eu
E você é você
É lindo, é vasto
Vai durar
Eu não sei muito bem
O que vou fazer em seguida
Mas por enquanto
Olha pra mim e me ama
Não
Tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo."
Clarice Lispector
(Forte de Copacabana, RJ)
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero...
Eis que as três horas da madrugada eu me acordei
E me encontrei
Simplesmente isso:
Eu me encontrei calma, alegre
Plenitude sem fulminação
Simplesmente isso
Eu sou eu
E você é você
É lindo, é vasto
Vai durar
Eu não sei muito bem
O que vou fazer em seguida
Mas por enquanto
Olha pra mim e me ama
Não
Tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo."
Clarice Lispector
(Forte de Copacabana, RJ)
Julio Cortázar é autor para ser lido, relido, consultado e degustado palavra a palavra. Depois de uma viagem por sua literatura não voltamos os mesmos. Prepare-se para ler textos fortes, vigorosos, com entrecortes de delicadeza. Ler Cortázar é experiência, é imersão.
TOCO A TUA BOCA
"Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água."
domingo, 8 de abril de 2012
Este texto é daqueles que sentimos uma certa inveja por não ter escrito. Fala sobre este amor padronizado, previsível, que tanto se vê por aí. Das relações por conveniência, por acomodação, que sobrevivem pela preguiça que uma das partes (ou ambas) sentem de seguir em direção ao novo. Pelo medo de arriscar, de sair da sua zona de conforto emocional e físico. Do amor contaminado pelo uso de manuais e regras. Do pânico de andar à beira do precipício. Sim, porque no amor não há garantias, apenas entrega e dedicação.
ELE/ELA será fiel? Não há garantias! ELE/ELA me amará para sempre? Pode ser que sim, pode ser que não. Contrato algum assegura o amor. Temos o direito de amar e desamar na mesma proporção, mas quando AMAR, entregue-se de corpo, alma, coração e pensamento. Rasgue os manuais, infrinja as regras, fale, demonstre, conte, desbrave novas possibilidades, sorria, chore, cante o seu amor.
Não sabote o amor quando ele se apresentar em sua vida. Receba-o de alma e coração abertos. Se ele durar para sempre, será maravilhoso. Se não, chore, arraste suas correntes por aí, sinta a sua dor, elabore a perda, e se prepare porque um outro amor virá, outro amor o encontrará. Não se defenda! AME ! MUITO!
UM ELOGIO AO AMOR PURO
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banancides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Texto de Miguel Esteves Cardoso in Expresso
publicado em artes e ideias por benjamin júnior
E POR QUE HOJE É DOMINGO...
Pequena elegia chamada domingo
O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens. Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.
Hoje os montes e os rios
e as nuvens não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios ...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.
Eugénio de Andrade
ESPELHO, ESPELHO MEU!!
Não é fácil olhar os espelhos que a Vida vai dispondo em nosso caminho. Negamos, na maioria das vezes, a existência deles. Enormes, iluminados, nítidos! Espelhos!! Destacam qualidades e defeitos na mesma proporção. Olhar-se em um espelho é desnudar-se corajosamente. Ali estamos, tais como somos, nada inventado, nada escondido, tudo revelado. Crescemos quando encaramos esta mirada com maior leveza. Quando compreendemos que somos responsáveis pelo que vemos refletido ali, únicos e definitivos responsáveis. Espelhos não mentem nem fazem acordos e não respondem perguntas. Sinalizam caminhos, possibilidades, verdades. E jamais faça aquela pergunta : " Espelho, espelho meu! Há no mundo alguém mais bonita do que eu?" Sempre haverá, sempre haverá!
Clarice Lispector em sua genialidade escreveu:
"O que é um espelho? Não existe a palavra espelho - só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. - Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Não são precisos muitos para se ter a mina faiscante e sonambólica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente "ad infinitum", liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, os reflexos dessa dura água. - O que é um espelho? Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. - Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. - E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho. - A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como água se derrama. - O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem - então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho que eu me vejo sou eu, mas espelho vazio é que é espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar num quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo. Em outro instante, este muito raro - e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante - nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água."
Clarice Lispector
Clarice Lispector
sábado, 7 de abril de 2012
Bach - St. Matthew Passion, BWV 244 - Part Two
30. Aria (alto, flute) and Coro II: Ach, nun ist mein Jesus hin! -- Wo ist denn dein Freund hingegangen (0:00)
31. Evangelist: Die aber Jesum gegriffen hatten, führeten ihn zu dem Hohenpriester Kaiphas (04:21)
32. Chorale: Mir hat die Welt trüglich gericht' (05:17)
33. Evangelist, Witnesses, High Priest: Und wiewohl viel falsche Zeugen herzutraten, funden sie doch keins. (6:17)
34. Recitativo (tenor, oboes, viola da gamba): Mein Jesus schweigt zu falschen Lügen stille (7:14)
35. Aria (tenor, viola da gamba): Geduld, Geduld! Wenn mich falsche Zungen stechen (08:27)
36a. Evangelist, High Priest, Jesus: Und der Hohenpriester antwortete (11:58)
37. Chorale: Wer hat dich so geschlagen (14:13)
38a. Evangelist, Maid, Peter, Maid II: Petrus aber saß draußen im Palast (15:10)
39. Aria (alto, violin solo I): Erbarme dich, mein Gott, um meiner Zähren Willen! (17:35)
40. Chorale: Bin ich gleich von dir gewichen (23:47)
41a. Evangelist, Judas: Des Morgens aber hielten alle Hohepriester und die Ältesten des Volks einen Rat (24:49)
42. Aria (basso, violin solo II): Gebt mir meinen Jesum wieder! (26:35)
43. Evangelist, Pilate, Jesus: Sie hielten aber einen Rat und kauften einen Töpfersacker (29:37)
44. Chorale: Befiehl du deine Wege (31:49)
45a. Evangelist, Pilate, Pilate's wife: Auf das Fest aber hatte der Landpfleger Gewohnheit, dem Volk einen Gefangenen loszugeben (32:51)
45b. Coro I & II: Laß ihn kreuzigen! (34:52)
46. Chorale: Wie wunderbarlich ist doch diese Strafe! (35:12)
47. Evangelist, Pilate: Der Landpfleger sagte (36:11)
48. Recitativo (soprano, oboe da caccia): Er hat uns allen wohlgetan (36:26)
49. Aria (soprano, flute, oboe da caccia, no strings, no basso continuo): Aus Liebe will mein Heiland sterben (37:38)
50a. Evangelist: Sie schrieen aber noch mehr und sprachen (42:11)
51. Recitativo (alto): Erbarm es, Gott! Hier steht der Heiland angebunden. (46:05)
52. Aria (alto): Können Tränen meiner Wangen (45:17)
53a. Evangelist: Da nahmen die Kriegsknechte des Landpflegers Jesum zu sich (52:47)
54. Chorale: O Haupt, voll Blut und Wunden (53:54)
55. Evangelist: Und da sie ihn verspottet hatten, zogen sie ihm den Mantel aus (56:23)
56. Recitativo (basso, flutes, viola da gamba): Ja, freilich will in uns das Fleisch und Blut zum Kreuz gezwungen sein (57:12)
57. Aria (basso, viola da gamba): Komm, süßes Kreuz, so will ich sagen (57:47)
58a. Evangelist: Und da sie an die Stätte kamen mit Namen Golgatha (1:03:51)
59. Recitativo (alto, oboe da caccia): Ach Golgatha, unselges Golgatha! (1:07:32)
60. Aria (alto, oboe da caccia) and Coro II: Sehet, Jesus hat die Hand uns zu fassen ausgespannt, kommt! -- Wohin? (1:09:10)
61a. Evangelist, Jesus: Und von der sechsten Stunde an war eine Finsternis über das ganze Land (1:12:38)
62. Chorale: Wenn ich einmal soll scheiden (1:14:54)
63a. Evangelist: Und siehe da, der Vorhang im Tempel zerriß in zwei Stück (1:16:21)
64. Recitativo (basso): Am Abend, da es kühle war (1:19:07)
65. Aria (basso, oboe da caccia): Mache dich, mein Herze, rein (1:21:20)
66a. Evangelist: Und Joseph nahm den Leib und wickelte ihn in ein rein Leinwand (1:28:16)
67. Recitativo (basso, tenor, alto, soprano) and Coro II: Nun ist der Herr zur Ruh gebracht. -- Mein Jesu, gute Nacht! (1:30:52)
68. Coro I & II: Wir setzen uns mit Tränen nieder (1:32:38)
Nikolaus Harnoncourt
Concentus Musicus Wien
King's College Choir Cambridge
1970
"JOHANN SEBASTIAN BACH
Gênio traduz mistérios do sagrado
"Quem aprende a tocar Bach pode tocar qualquer música. Esse mito popular vivo entre os músicos é apenas uma pequena mostra da grandeza do trabalho do compositor alemão Johann Sebastian Bach. Gênio da matemática, ele também foi uma figura excêntrica --assim como sua arte, dificílima. Era obstinado em combinar as melodias da música e, graças a sua técnica, dominou como ninguém a ciência da composição em prol da harmonia perfeita.
Nascido em 21 de março de 1685, em Eisenach, uma pequena cidade da Turingia, no centro da Alemanha, desde pequeno o caminho de Johann Sebastian Bach cruzou-se com o da Igreja Protestante de Martim Lutero, fundada na Alemanha do século 16, e da qual sua família, os tradicionais músicos Bach, fazia parte.
Naturalmente, seu pai, o violinista Johann Ambrosius Bach, educou os seus oito filhos para que se tornassem proeminentes músicos seguindo a tradição dos Bach, que passaram sua herança musical de geração em geração por 200 anos. Só que o seu caçula superou a todos. Órfão de pai e mãe aos nove anos de idade, Johann Sebastian passou a adolescência em Ohrdruf com seu irmão mais velho, o violinista Johann Christoph.
No fim do século 17, a Alemanha estava dividida em estados independentes, mas abertos a culturas européias, como as da Itália e França. Foi nesse cenário, que o jovem Bach adquiriu uma sofisticada formação cultural, absorvendo a arte dos compositores antigos e também a de seus contemporâneos barrocos Antonio Vivaldi, Reincken e Frescobaldi, entre outros.
Mas ele precisava de mais informação. Então, com quinze anos de idade, alcançou meios de desenvolver plenamente a sua intelectualidade, matriculando-se na respeitada escola São Miguel de Lüneburg. Consta-se que, ainda criança, transcrevia obras de autores em alemão, latim, francês ou italiano. Ávido por conhecimento, Bach estudava várias horas, todos os dias. Tudo para aperfeiçoar seu domínio técnico sobre a música, que despertou o fascínio de diversas gerações --mais tarde Mozart e Beethoven também o chamariam de "o pai da harmonia".
Esforçado, o compositor alemão teve vários empregos em igrejas e nas cortes que serviu na Alemanha. Em 1703, ele conseguiu seu primeiro trabalho, em Arnstadt, onde ocupou o cargo de organista da igreja de St. Boniface. E apesar da pouca idade, Bach já era um mestre em seu ofício e fez transformações musicais que escandalizaram seus superiores. Mas nem por isso mudou seu pensamento. No ano de 1707, casou-se com a sua jovem prima Maria Bárbara e constitui família cedo. Ela lhe deu sete filhos durante os treze anos do casamento, mas durante uma viagem do marido subitamente adoeceu e morreu.
Nessa época, Bach fora nomeado Kapellmeister (mestre de capela) em Cöthen. Sob a proteção do príncipe calvinista Leopold, ele ganhava um alto salário e pôde, sobretudo, dedicar-se à composição de músicas instrumentais. Datam dessa época seus concertos para violino e os seis Concertos de Brandenburgo, feitos sob encomenda para o duque de Brandenburgo. Um ano após a morte de Maria Bárbara, Bach casou-se novamente. Dessa vez, apaixonou-se pela filha de um trompetista da corte, a cantora Anna Magdalena, que se revelou uma companheira adorável. Ele tinha 36 anos e ela 20. Ao todo, o casal teve treze crianças.
Depois de vários anos trabalhando nas cortes alemãs, em 1723, Bach retornou as suas origens e mudou-se para Leipzig, onde assumiu o posto de organista e professor da igreja de São Tomas. Totalmente voltado à obra de Deus, consta que nos primeiros anos passados em Leipzig deixou de produzir música "profana" e passou a escrever exclusivamente concertos religiosos. Seus historiadores contam que, nessa época, Bach compôs uma quantidade prodigiosa de música eclesiástica, entre elas duas de suas maiores obra-primas:Johannespassion (Paixão segundo São João, 1723) e Matthauspassion(Paixão segundo São Mateus, 1729).
O gênio da ciência musical não acumulou riquezas, e trabalhou até os últimos dias de vida para prover o seu sustento e dos entes queridos. Cercado por sua família, Bach morreu completamente cego no dia 28 de julho de 1750. Consta-se que, em seu leito de morte, ele tenha ditado ao genro Altnkiol sua última obra: Senhor, eis-me diante do Teu Trono, que foi executada em seu funeral. Bach está enterrado num sepulcro sem marca na igreja de São Tomas."
BACH, SUBLIME!
2a. Evangelist, Jesus: Da Jesus diese Rede vollendet hatte (7:29)
3. Chorale: Herzliebster Jesu, was hast du verbrochen (8:18)
4a. Evangelist: Da versammleten sich die Hohenpriester und Schriftgelehrten (9:08)
5. Recitativo (alto, flutes): Du lieber Heiland du (12:30)
6. Aria (alto, flutes): Buß und Reu (13:39)
7. Evangelist, Judas: Da ging hin der Zwölfen einer mit Namen Judas Ischarioth (18:56)
8. Aria (soprano, flutes): Blute nur, du liebes Herz! (19:34)
9a. Evangelist: Aber am ersten Tage der süßen Brot (24:23)
10. Chorale: Ich bin's, ich sollte büßen (26:54)
11. Evangelist, Jesus: Er antwortete und sprach (27:43)
12. Recitativo (soprano, oboe d'amore): Wiewohl mein Herz in Tränen schwimmt (30:59)
13. Aria (soprano, oboe d'amore): Ich will dir mein Herze schenken (32:28)
14. Evangelist, Jesus: Und da sie den Lobgesang gesprochen hatten (36:14)
15. Chorale: Erkenne mich, mein Hüter (37:28)
16. Evangelist, Peter, Jesus: Petrus aber antwortete und sprach zu ihm (38:34)
17. Chorale: Ich will hier bei dir stehen (39:42)
18. Evangelist, Jesus: Da kam Jesus mit ihnen zu einem Hofe, der hieß Gethsemane (40:50)
19. Recitativo (tenor, flauti dolci, oboe da caccia) and Coro II: O Schmerz! Hier zittert das gequälte Herz -- Was ist die Ursach aller solcher Plagen? (42:33)
20. Aria (tenor, solo oboe, flutes) and Coro II: Ich will bei meinem Jesu wachen -- So schlafen unsre Sünden ein (44:22)
21. Evangelist: Und ging hin ein wenig, fiel nieder auf sein Angesicht und betete (49:42)
22. Recitativo (basso): Der Heiland fällt vor seinem Vater nieder (50:32)
23. Aria (basso): Gerne will ich mich bequemen, Kreuz und Becher anzunehmen (51:48)
24. Evangelist, Jesus: Und er kam zu seinen Jüngern und fand sie schlafend (56:58)
25. Chorale: Was mein Gott will, das gscheh allzeit (58:24)
26. Evangelist, Jesus, Judas: Und er kam und fand sie aber schlafend (59:37)
27a. Aria (soprano, alto, flutes, oboes) and Coro II: So ist mein Jesus nun gefangen -- Laßt ihn, haltet, bindet nicht! (1:02:18)
28. Evangelist, Jesus: Und siehe, einer aus denen, die mit Jesu waren, reckete die Hand aus (1:07:22)
29. Chorale: O Mensch, bewein dein Sünde groß (1:09:57)
Nikolaus Harnoncourt
Concentus Musicus Wien
King's College Choir Cambridge
1970
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